Today I walked through the white mountains
hidden in the echoes of my silence.
As I walked, an old farmer flew through
my solitude and, sweet as a small
girl, danced through sheets of white velvet
gently held by the sun.
I touched him and recognized burned smiles
in damp bodies dreaming the passion of the
nothing.
Flowing in the northern wind, I ran,
lost in the vastness of an orange field,
over the anxious speed of a forgotten dream.
As the morning came, wild flowers cried
in the warmth of a breeze while the wind,
filled with the incense of the sea,
promised a whisper.
And, gentle, from the gist of my tears an
harmony of silence kissed my lips. I was you.
Quinta-feira, 7 de Outubro de 2010
Sábado, 2 de Janeiro de 2010
"Horizonte Perdido" - Lisboa Março 2010
I.
Era um dia cinzento. Não soturno ou triste. Pura e simplesmente cinzento. Como uma nuvem sobre o luar. João saíra apressadamente de casa. Olhava o eléctrico, lento, a deslizar como um velho senhor que se passeia alegremente num escorrega, e tropeçou. "Uma pena de alcatraz" reparou ele incrédulo. Sim, de alcatraz. Só um alcatraz poderia ter uma pena assim. Era uma pena distinta, com um peso de mil árvores e mil sóis, suficiente para derrubar o mais poderoso dos exércitos. João olhava absorto para a sua pena. Voara sobre o imenso mundo, sentira intermináveis oceanos de som perdidos no ar, ouvira os penosos segredos dos ventos fortes suspirados em si. E era cinzenta, como as nuvens que teimavam em não desaparecer esta manhã. João acendeu um cigarro e pôs-se a passo. Tinha 10 minutos para chegar ao trabalho.
II.
Era tarde. Os minutos esvaiam-se por entre as mãos de João como preciosas pérolas, douradas, brancas, vermelhas, com cheiros imensos de mundo. O Sr. António não se fez rogado e imediatamente disparou a sua habitual graçola futebolística "Fazes-me lembrar o Nuno Gomes. Chega sempre. Mas fora do tempo...Ahahahah!!" João não sabia quantas vezes havia já ouvido aquela graçola. De cada vez achava-a mais hilariante. Não que achasse especial interesse ao Nuno Gomes, como poderia ele, ou que visse especial relevância em ter um registo personalizado de atrasos, mas gostava de se imaginar como um jogador perdido no campo. Um jogador que corria atrás de um pássaro que sobrevoava o estádio, que se sentava a conversar com quem por lá gravitava, que se entretinha a trocar piadas de café com os guarda-redes enquanto a acção se desenvolvia no outro hemisfério do estádio. Sim, este era o tipo de jogador que o mundo precisava, pensava João com o riso esboçado enquanto se sentava em frente à sua velha Daisy. Era um tesouro esta Daisy. As teclas já estavam coçadas nos sítios certos, o rolo de escrever já exalava um elixir mágico com incensos arábicos e odor de café. Estava bem amestrada. Um trabalho de anos, a passar cada carta do Sr. Dr. Esteves Cardoso de Filigrana.
III.
"Onde está esse caralho?" O vento soprava lento dentro do escritório. A pequena janela do quarto de arrumações criava uma brisa agradável com o ar que suspirava por baixo das portas. "Onde está esse caralho?" A luz era ténue essa manhã. A velha cortina rendada, outrora branca, dava à luz que ousava entrar no pequeno escritório um tom afável, terno, doce. "Onde está esse caralho porra?" "...bem....senhor doutor....o...o....João foi à rua...comprar tabaco sabe...mas...mas disse que já vinha..." Gertrudes ficava sempre em pânico com os ataques de fúria do Dr. Filigrana. Não sabia se era a voz, os olhos arregalados, as pestanas a subirem ao nível da careca, a imponência da barriga a ameaçar rebentar as calças e disparar um botão assassino pela sala. "Um dia despeço esse caralho. Ele que venha ao meu escritório assim que chegar. Caralho." Tudo revestia um carácter assustador para Gertrudes quando o Dr. Filigrana irrompia nas suas habituais fúrias. Pássaros de cem bicos sobrevoavam o escritório, ondas atrozes irrompiam pelo armário da máquina de café, chamas do tamanho de montanhas consumiam a pequena fotografia com dois gatinhos ternamente pousada na sua velha secretária. "E traga-me um café...caralho." Era tempo de pôr mãos à obra e amansar o velho leão. Gertrudes correu para o armário, pegou, trémula, mas viva, na chávena branca do Dr. Filigrana, inspeccionou-a cuidadosamente em busca de qualquer poeira perdida, e preparou sem demora o café. Curto, mas não sem menos de dois dedos de café, doce, mas exactamente na fronteira que separa a doçura da acidez, quente, mas apenas o suficiente para garantir uma espera não inferior a um minuto e não superior a dois, o tempo exacto que o Dr Filigrana habitualmente demorava a tocar na sua chávena de café. Aprende-se muita coisa em trinta e cinco anos. Até a amar.
IV.
“A noite.” pensou Berta. Uma noite dura, a esfumaçar o infinito em cada brisa, a espalmar o horizonte em cada esquina. “E o bairro alto vazio. Preciso mesmo de foder hoje.” Berta sentia os grafittis e o mijo naquelas paredes como seus. A alma rasgava-lhe o sexo, o desejo ensurdecia-lhe o olhar. Dois putos fumavam um charro em frente ao Portão Verde. Lou Reed enchia o ar frio da noite. Berta decidiu entrar.
- Uma cerveja
- Tenho super-bock e cristal
- super-bock
- ah...1 euro se faz favor
- hmm...só tenho notas
- Jeremias??
Um adolescente franzino surgiu do fundo do bar, a escuridão ensobrava-lhe o olhar, a luz esmorecida reflectia-se subtilmente no seu andar.
- Tens troco para dez euros?
- ah...deixa ver....tenho
- dá cá
Berta olhou-o. O olhar de Berta desconcertou-o. O infinito que irradiava dos olhos de Berta gritava um silêncio ensurdecedor. Jeremias parou, subitamente meio inerte, a ondular no ar como se perdido no absurdo. A sua fragilidade irritou Berta.
- Aqui tem
- hm....obrigado.
Berta decidiu sentar-se. O bar estava vazio. Além da velhota do bar e de Jeremias, apenas um rasta entretido a jogar uma velha máquina de pacman encostada frente ao bar, enchia o lugar. Berta acendeu um cigarro e olhou para a rua. Tinha começado a chover. A chuva lavava a rua perante o olhar perdido de Berta. Já tudo a incomodava. O pequeno apartamento no Poço dos Negros, a clientela da loja, a D. Amália e as suas contínuas ameaças de despejo. Berta estava farta de todos eles, de todos os dias, de todas as caras, de todos os lugares. A impaciência ardia-lhe a alma, o ímpeto de se lançar no ar e perder-se num infinito longe do mundo petrificava-lhe o olhar. “Porra......hmm.....este guarda-chuva é uma treta...lá não fecha outra vez...hmm....pronto.....” Até o guarda-chuva estava a emperrar. Já não bastava o chato do Dr Filigrana com a sua carta de hoje, a Daisy que tinha partido uma tecla, agora o guarda-chuva. O mundo parecia que tinha subitamente emperrado, como uma rebarbadora, pensou João. O Portão Verde estava meio vazio como de costume. Exactamente como João gostava. Avançou até ao bar e pediu uma cerveja.
- olá senhor joão
- olá dona ana...bem disposta?
- lá se vai andando...o senhor sabe como é...
- pois..
- ...é...enfim...mas hoje pelo menos já tenho dois clientes...pode ser que a noite ainda corra bem...mas a chover....isto assim.....e ainda ter o Jeremias para sustentar sozinha....
João sorriu. Não se lembrava de algum dia ter visto a D. Ana sorridente. Não chegava nunca muito bem a perceber porquê, mas para ele fazia já parte do charme do Portão Verde. Os queixumes da D. Ana, o som da máquina do pacman, a rádio sempre com música ligada, os velhos cartazes do Teatro S. Carlos, a recordar as velhas glórias da D. Ana, já enegrecidos pelo fumo e pelo passar dos anos, tudo isto reconfortava João como um leve bafo num cigarro. Decidiu sentar-se.
- Tem lume?
- ..hã....tenho...
João estendeu o braço e acendeu o seu bic.
- hmm....obrigado
- de nada
- posso-me sentar?
- claro
- chamo-me berta
- olá....joão
- vens cá muitas vezes?
- sim, algumas
- eu nunca cá tinha vindo...és de Lisboa?
- não, sou do Porto
Berta sorriu.
- pareço-te estranha com tantas perguntas?
João sorriu.
- não...és curiosa...
- muito
- eu também
- posso-te levar para minha casa?
- agora?
- sim
- podes
- não te vais arrepender
- eu nunca me arrependo. Ter remorsos é ser indecente para a consciência.
- ah...um poeta....
- não...empregado de escritório
- que engraçado, não me pareces nada o tipo
- há um tipo?
- há, claro que há...dobrado, desengonçado, calado...bom...calado não pareces ser...e dobrado e desengonçado também não...
Berta sorriu. Um sorriso alegre, estranhamente sincero. João sentiu-se atordoado. Como se um eclipse se tivesse abatido subitamente sobre o luar.
- então e tu?
- e eu se sou calada?
- pois...disso não tenho dúvidas. João sorriu. –...o que fazes tu?
- além de engatar gajos como tu
“Aquele sorriso outra vez” pensou João enquanto ouvia a voz doce de Berta a misturar-se numa música portuguesa da treta que pairava no ar. “Será aquele João Pedro Pais?”
- trabalho numa loja de pronto a vestir para senhoras
- boa. Aqui perto?
- sim, no Chiado
- eu também trabalho lá. Nos escritórios em cima da pastelaria
- nunca vou a essa pastelaria. É caríssima
- pois é...mas tem os melhores brigadeiros do mundo...gostas de brigadeiros?
- adoro
- havemos de ir lá um dia
- gostava muito. Vamos?
- à pastelaria?
- não, para minha casa
João sorriu.
- vamos.
Berta levantou-se e vestiu o casaco. João caminhou rumo ao seu guarda-chuva. “vê lá não me deixes mal meu malandro” pensou João. “abriu....”
- vamos os dois no guarda-chuva?
- sim
Caminharam os dois pela escuridão que se abatia nessa noite sobre Lisboa como dois cegos perdidos no mar. Desceram a Calçada do Combro e chegaram a um velho palacete no Poços dos Negros.
- vivo aqui. No segundo andar.
Subiram lentamente as escadas e chegaram a uma porta.
- 2B
- sim. Vivo aqui à já um ano. Mas agora está a ser difícil pagar...se calhar um dia mudo...
Berta acendeu a luz do pequeno apartamento. Uma só divisão com um sofá castanho, uma pequena cozinha, uma mesa com uma fruteira, duas cadeiras, e uma cama. Alguns pequenos quadros espalhados pelas paredes davam-lhe um ar acolhedor. João entrou.
- gostas?
- sim
- queres-me?
- muito
João agarrou Berta com veemência e beijou-a.
- beijas bem
- tu não
João sorriu. Agarrou ternamente a mão de Berta e encaminhou-a para a cama. O olhar de Berta era imenso para João. Berta despiu-se.
- és linda
- despe-te também
João despiu-se.
E degladiaram-se. Como um rei e a sua rainha, com ondas a abaterem-se violentamente sobre as suas almas e a ânsia do poder a inebriar-lhes o olhar. E depois veio o fim. Um fim de morte. Doce e amargo como um suicídio. Berta deitou-se sobre João.
- estás bem?
- estou...e tu?
- também
- queres um cigarro?
- sim
Fumaram o cigarro os dois perdidos no ar. Berta fixou o seu olhar no pequeno quadro em frente à cama. “Até é giro aquele quadro,” pensou. “Gosto deste gajo.” João levantou-se e pegou nas calças. Olhou para o chão. O tapete era cor café, tinha um toque confortável. Olhou para Berta deitada na cama. “Não me quero ir embora,” pensou enquanto levantava o olhar.
- queres is à pastelaria amanhã?
- quero
- pronto, estamos combinados então
- combinados
- às cinco em frente?
- sim
- não me apetece ir embora
- fica
João despiu-se e deitou-se na cama. Tapou-se, e agarrou Berta. O calor do corpo de Berta, a brandura da sua pele, o cheiro do seu cabelo. João sentiu-se como se dentro do mais quente dos cobertores, com a sua alma a parar finalmente de tremer do frio gélido que empalidece a vida. João agarrou-se forte a Berta, e adormeceu.
V.
Corre, corre e não pares!! Palhaços azuis e vermelhos saltavam por entre palácios encrustados a rubis, um cão ladrava sem cessar, e queria ferrar, queria ferrar, queria ferrar.....Pára!!!!! Pára!!!!! O sentinela morreu, a lápide cessou de gritar, já não há céu!!!!!! Já não há céu!!!!!! Porque ladrais sem cessar???? Pára!!!!! Pára!!!!! ...O MAAR.............OOO MMMMAAAARRRRR!!!!!!!!! CORRE!!!!!!!! CORRE!!!!!!!!! E NÃO PARES!!!!!!!!!! NÃO PARES!!!!!!!!!! NÃO PAAAAAAAAARES!!!!!!!!!!!!! "JOÃO, JOÃO!!!!!!..." "hhahha....uh......Berta....uh....que foi?...uh..." "Estás bem??" "Estou...estava....estou..." "Estavas a gritar a dormir" "ha...hu...acho que estava a sonhar..." João virou-se para o lado. Eram 4.22h. O leve ruído da chuva na calçada criava um som surdo sincopado no quarto. Como o coração do universo, pensou João. Fechou os olhos, e virou-se para o outro lado.
VI.
"Os seus lábios são como uns óculos," pensou João. A imagem nítida, cristalina como uma fotografia de uma câmara com milhares de pixéis, dos lábios de Berta sobrepunha-se a tudo que o rodeava. Para olhar para as letras que a sua velha Daisy lentamente cozinhava tinha de olhar por entre o acetato dos lábios de Berta. As paredes do escritório, as árvores na rua, a luz do amanhecer, as palpitações de Lisboa, tudo vinha marcado pelo acetato dos lábios de Berta. Cada pequeno contorno dos seus lábios, cada ínfima marca esculpida na sua face, estavam rasgados, escritos a fogo, na alma de João. Apetecia-lhe encher o velho caldeirão da vida com a beleza do sorriso de Berta. No sorriso de Berta escondiam-se histórias de toda uma vida, um universo de alegrias e tristezas divinamente gravadas pelo seu espírito para todo o sempre. Abraçar Berta, perder-se na ternura dos seus braços, entregar as suas feridas à infindável doçura dos seus beijos. "João??"..."..ah...sim, doutor Filigrana..."..."A minha carta já está?"..."Sim...está quase senhor doutor. Está quase."
VII.
- Porque choras?
- Deixa-me
- Então...
- Deixa-me já te disse!!!
Um estranho silêncio encheu o pequeno apartamento.
- Acho melhor ires-te embora
João estava incrédulo. Teriam sido as meias? A pasta dos dentes? Algo que tinha dito? Mas quando? O quê? Não sabia o que fazer. Estava perdido perante o olhar despido de Berta.
- Já. Não te quero ver mais. Sai daqui.
João continuava inerte, atónito.
- Vou...mas...
- SAI DAQUI!!!!!!!
A raiva que agarrava o olhar de Berta rasgou subitamente a alma de João. Baixou o olhar, pegou no casaco, e saiu. A rua estava meia deserta, algo pouco comum para uma quarta-feira à noite. “Que se passou?” João caminhava sôfrego, como um cão esfomeado. Caminhou, caminhou. Caminhou. Lisboa queria acabar nessa noite, as calçadas da cidade morriam uma lenta dor que o orvalho mastigava. “Que se passou?” João revia tudo que se havia passado. Não percebia. Que se teria passado com Berta? “Que se passou?...e agora?...uffffff....correr para quê se não tenho chão. Deitar-me porquê se não tenho sono. Sonhar porquê se não tenho ilusão. Então e agora? Como viverás tu? Como viverei eu? Ah se te pudesse soletrar a minha alma num espelho, cantá-la na silenciosa harmonia da luz que se abate sobre o meu pensar quando contigo acordo e sonho sonho sonho, sonho como um pedinte à procura de pão. Enamorei, enamoráste, enamorámos, perdemo-nos num sonho azul sem alçapão. Preciso de um whisky.” João caminhou rumo a casa. Entrou, ligou o pequeno candeeiro da sala, pegou na garrafa de whisky, e sentou-se no sofá. “Que merda. Não percebo. Estas semanas correram tão bem. Correu tudo tão bem.” João olhou para o chão demoradamente e pegou na garrafa. “Que se foda.” E bebeu. “Hã.....uff.....puhh......adormeci...foda-se...que horas são....hã....tchhhh...tou fodido.” João saiu ainda cambaleante de casa. A calma da cidade tinha-se subitamente convertido numa orquestra de lata num concerto de estádio. João navegou até ao escritório e entrou.
- Olha quem ele é...o Nuno Gomes...ahahhaha..
- Hoje não senhor António. Hoje não. Não me chateie.
- Pronto, já cá não está quem falou...ora essa...uma gracinha...
- Não me chateie.
João sentou-se na sua secretária e encostou-se na cadeira.
- Bom dia senhor João...
- Hã...olá dona Gertrudes....
- O doutor Filigrana já perguntou por si...ele está...bem....está mesmo chateado hoje...eu...eu disse-lhe o costume...que o senhor João tinha saido para comprar tabaco
- Fez bem Gertrudes. Obrigado
-...pois...mas agora é melhor ir lá ao escritório...
João levantou-se e bateu na porta do escritório do Dr Filigrana.
- Entre...
João entrou cuidadosamente no escritório do Dr. Filigrana, enquanto pensava na música que ia cantar perante o seu estimado espectador.
- ah...olha quem ele é...o meu caralho...
-...bom dia doutor Filigrana...penso que queria falar comigo...
- bom dia...pois...bom dia PARA SI!!! SEU ESTAFERMO!!! É para isso que eu lhe pago??? Para andar a passear??
- fui só comprar tabaco
- POIS DEIXE DE FUMAR MEU CARALHO!!! EU JÁ LHE DISSE...“there is no sunshine when she’s gonne, only darkness every day...there is no sunshine when she’s gone...but she is always gone..oouohooh...every time she goes away..” ....PERCEBEU MEU CARALHO??????
- Sim senhor doutor
- Então pegue-me nesse texto e dactilografe-o. PARA HOJE!!!!!!!!!!!!! E saia-me da frente. Caralho.
O dia parecia não querer passar. Até a Daisy estava apática hoje. João olhou para a rua pela janela que vivia ao lado da sua secretária. “Preciso de a ver.” Pegou no casaco.
- já venho dona Gertrudes...
- oh senhor João o....
- até logo
Era hora de almoço. O Chiado estava em alvoroço. “Se calhar ainda a apanho antes que saia.” João atravessou a rua e desceu até à loja onde trabalhava Berta. Parou em frente e acendeu um cigarro. Passados poucos minutos, Berta sai acompanhada com uma colega. João caminha na sua direcção.
- Berta?
- hã....ah....
Berta vira-se para a sua colega.
- vai andando que já lá vou ter
- está bem. Tens a certeza?
- sim...eu vou já lá ter
A colega de Berta afasta-se.
- que estás aqui a fazer meu estafermo
- precisava falar contigo
- que queres?
- explica-me pelo menos porquê
- porque estou farta de ti. Chega?
- mas, assim, de um dia para o outro...deve haver uma razão...
- não, não há razão nenhuma. Estou farta de ti, e da tua presença, e das tuas conversas da treta. Estou farta, percebes? Farta. Deixa-me em paz.
- pois eu gosto muito de ti
- gostas nada. Sabes lá o que é gostar. E sabes que mais? Quero lá saber. Desaparece.
- gosto nada?...que achas que estou aqui a fazer??
- a cuidar da tua foda
O olhar de Berta estava submerso num mar revolto. O ódio fortalecia-lhe a voz e endurecia-lhe a postura.
- não me conheces
- conheço o suficiente. Vocês são todos iguais.
- eu não
- ah...uma prima donna...
- queria-te ver. Estava desesperado. Estou desfeito por dentro. Gosto imenso de ti e...
João parou e baixou o olhar.
- vá, segue o teu caminho que eu sigo o meu. È simples.
- é assim tão difícil deixares-te amar?
- hã? Estás-te a passar? Desaparece-me da vista.
João sentiu-se então possuído por um vento de tempestade. Agarrou violentamente Berta e beijou-a sem cessar enquanto ela se debatia ferozmente para se libertar. Uma luta de titãs, com Berta a lutar contra João, e contra o céu, e o vento, e a alma, e a solidão, e o amor, e a traição, e a raiva, e a ternura. E cedeu, finalmente cedeu, derrotada, como um rio desnudado frente ao mar. Agarrou-se vigorosamente a João e beijou-o com a força das montanhas que lhe apertavam o ventre, com o desejo que a agarrava como um vulcão. E acalmaram. Como dois amantes exaustos após uma noite interminável em Alexandria. Ficaram ali abraçados, pendentes num segundo interminável, enquanto os transeuntes iam passando no movimentado Chiado. Berta encostou a sua cabeça no peito de João.
- um dia vais embora como os outros
João abraçou-a com mais intensidade.
- não vou nada
- todos vão. Um dia fartas-te e queres foder outra
- gosto muito de te foder a ti
- ou então farto-me eu e quero eu foder outro
- nessa altura pensamos nisso
- não digas que não te avisei
- gostas de mim?
- gosto, pronto. E depois?
- Já ouviste Dee Dee Bridgewater?
- hã?..
- to love and be loved in return
- sim...
- Gostarmos de alguém que também gosta de nós. Não acontece assim tantas vezes como isso sabes...e depois vemos...sei lá...depois vemos...
- depois vemos...pois...não sei...agora é tudo tão mais fácil...
Berta olhou para o chão.
- não é nada. Não sabes.
Berta levantou o olhar.
- não sei o quê?
- não sabes nada aparte o que sabes agora.
Berta sorriu.
- o meu poeta...
- empregado de escritório
João sorriu.
- um brigadeiro?
- sim...
Deram as mãos e seguiram rumo ao horizonte perdido naquela tarde em Lisboa.
Era um dia cinzento. Não soturno ou triste. Pura e simplesmente cinzento. Como uma nuvem sobre o luar. João saíra apressadamente de casa. Olhava o eléctrico, lento, a deslizar como um velho senhor que se passeia alegremente num escorrega, e tropeçou. "Uma pena de alcatraz" reparou ele incrédulo. Sim, de alcatraz. Só um alcatraz poderia ter uma pena assim. Era uma pena distinta, com um peso de mil árvores e mil sóis, suficiente para derrubar o mais poderoso dos exércitos. João olhava absorto para a sua pena. Voara sobre o imenso mundo, sentira intermináveis oceanos de som perdidos no ar, ouvira os penosos segredos dos ventos fortes suspirados em si. E era cinzenta, como as nuvens que teimavam em não desaparecer esta manhã. João acendeu um cigarro e pôs-se a passo. Tinha 10 minutos para chegar ao trabalho.
II.
Era tarde. Os minutos esvaiam-se por entre as mãos de João como preciosas pérolas, douradas, brancas, vermelhas, com cheiros imensos de mundo. O Sr. António não se fez rogado e imediatamente disparou a sua habitual graçola futebolística "Fazes-me lembrar o Nuno Gomes. Chega sempre. Mas fora do tempo...Ahahahah!!" João não sabia quantas vezes havia já ouvido aquela graçola. De cada vez achava-a mais hilariante. Não que achasse especial interesse ao Nuno Gomes, como poderia ele, ou que visse especial relevância em ter um registo personalizado de atrasos, mas gostava de se imaginar como um jogador perdido no campo. Um jogador que corria atrás de um pássaro que sobrevoava o estádio, que se sentava a conversar com quem por lá gravitava, que se entretinha a trocar piadas de café com os guarda-redes enquanto a acção se desenvolvia no outro hemisfério do estádio. Sim, este era o tipo de jogador que o mundo precisava, pensava João com o riso esboçado enquanto se sentava em frente à sua velha Daisy. Era um tesouro esta Daisy. As teclas já estavam coçadas nos sítios certos, o rolo de escrever já exalava um elixir mágico com incensos arábicos e odor de café. Estava bem amestrada. Um trabalho de anos, a passar cada carta do Sr. Dr. Esteves Cardoso de Filigrana.
III.
"Onde está esse caralho?" O vento soprava lento dentro do escritório. A pequena janela do quarto de arrumações criava uma brisa agradável com o ar que suspirava por baixo das portas. "Onde está esse caralho?" A luz era ténue essa manhã. A velha cortina rendada, outrora branca, dava à luz que ousava entrar no pequeno escritório um tom afável, terno, doce. "Onde está esse caralho porra?" "...bem....senhor doutor....o...o....João foi à rua...comprar tabaco sabe...mas...mas disse que já vinha..." Gertrudes ficava sempre em pânico com os ataques de fúria do Dr. Filigrana. Não sabia se era a voz, os olhos arregalados, as pestanas a subirem ao nível da careca, a imponência da barriga a ameaçar rebentar as calças e disparar um botão assassino pela sala. "Um dia despeço esse caralho. Ele que venha ao meu escritório assim que chegar. Caralho." Tudo revestia um carácter assustador para Gertrudes quando o Dr. Filigrana irrompia nas suas habituais fúrias. Pássaros de cem bicos sobrevoavam o escritório, ondas atrozes irrompiam pelo armário da máquina de café, chamas do tamanho de montanhas consumiam a pequena fotografia com dois gatinhos ternamente pousada na sua velha secretária. "E traga-me um café...caralho." Era tempo de pôr mãos à obra e amansar o velho leão. Gertrudes correu para o armário, pegou, trémula, mas viva, na chávena branca do Dr. Filigrana, inspeccionou-a cuidadosamente em busca de qualquer poeira perdida, e preparou sem demora o café. Curto, mas não sem menos de dois dedos de café, doce, mas exactamente na fronteira que separa a doçura da acidez, quente, mas apenas o suficiente para garantir uma espera não inferior a um minuto e não superior a dois, o tempo exacto que o Dr Filigrana habitualmente demorava a tocar na sua chávena de café. Aprende-se muita coisa em trinta e cinco anos. Até a amar.
IV.
“A noite.” pensou Berta. Uma noite dura, a esfumaçar o infinito em cada brisa, a espalmar o horizonte em cada esquina. “E o bairro alto vazio. Preciso mesmo de foder hoje.” Berta sentia os grafittis e o mijo naquelas paredes como seus. A alma rasgava-lhe o sexo, o desejo ensurdecia-lhe o olhar. Dois putos fumavam um charro em frente ao Portão Verde. Lou Reed enchia o ar frio da noite. Berta decidiu entrar.
- Uma cerveja
- Tenho super-bock e cristal
- super-bock
- ah...1 euro se faz favor
- hmm...só tenho notas
- Jeremias??
Um adolescente franzino surgiu do fundo do bar, a escuridão ensobrava-lhe o olhar, a luz esmorecida reflectia-se subtilmente no seu andar.
- Tens troco para dez euros?
- ah...deixa ver....tenho
- dá cá
Berta olhou-o. O olhar de Berta desconcertou-o. O infinito que irradiava dos olhos de Berta gritava um silêncio ensurdecedor. Jeremias parou, subitamente meio inerte, a ondular no ar como se perdido no absurdo. A sua fragilidade irritou Berta.
- Aqui tem
- hm....obrigado.
Berta decidiu sentar-se. O bar estava vazio. Além da velhota do bar e de Jeremias, apenas um rasta entretido a jogar uma velha máquina de pacman encostada frente ao bar, enchia o lugar. Berta acendeu um cigarro e olhou para a rua. Tinha começado a chover. A chuva lavava a rua perante o olhar perdido de Berta. Já tudo a incomodava. O pequeno apartamento no Poço dos Negros, a clientela da loja, a D. Amália e as suas contínuas ameaças de despejo. Berta estava farta de todos eles, de todos os dias, de todas as caras, de todos os lugares. A impaciência ardia-lhe a alma, o ímpeto de se lançar no ar e perder-se num infinito longe do mundo petrificava-lhe o olhar. “Porra......hmm.....este guarda-chuva é uma treta...lá não fecha outra vez...hmm....pronto.....” Até o guarda-chuva estava a emperrar. Já não bastava o chato do Dr Filigrana com a sua carta de hoje, a Daisy que tinha partido uma tecla, agora o guarda-chuva. O mundo parecia que tinha subitamente emperrado, como uma rebarbadora, pensou João. O Portão Verde estava meio vazio como de costume. Exactamente como João gostava. Avançou até ao bar e pediu uma cerveja.
- olá senhor joão
- olá dona ana...bem disposta?
- lá se vai andando...o senhor sabe como é...
- pois..
- ...é...enfim...mas hoje pelo menos já tenho dois clientes...pode ser que a noite ainda corra bem...mas a chover....isto assim.....e ainda ter o Jeremias para sustentar sozinha....
João sorriu. Não se lembrava de algum dia ter visto a D. Ana sorridente. Não chegava nunca muito bem a perceber porquê, mas para ele fazia já parte do charme do Portão Verde. Os queixumes da D. Ana, o som da máquina do pacman, a rádio sempre com música ligada, os velhos cartazes do Teatro S. Carlos, a recordar as velhas glórias da D. Ana, já enegrecidos pelo fumo e pelo passar dos anos, tudo isto reconfortava João como um leve bafo num cigarro. Decidiu sentar-se.
- Tem lume?
- ..hã....tenho...
João estendeu o braço e acendeu o seu bic.
- hmm....obrigado
- de nada
- posso-me sentar?
- claro
- chamo-me berta
- olá....joão
- vens cá muitas vezes?
- sim, algumas
- eu nunca cá tinha vindo...és de Lisboa?
- não, sou do Porto
Berta sorriu.
- pareço-te estranha com tantas perguntas?
João sorriu.
- não...és curiosa...
- muito
- eu também
- posso-te levar para minha casa?
- agora?
- sim
- podes
- não te vais arrepender
- eu nunca me arrependo. Ter remorsos é ser indecente para a consciência.
- ah...um poeta....
- não...empregado de escritório
- que engraçado, não me pareces nada o tipo
- há um tipo?
- há, claro que há...dobrado, desengonçado, calado...bom...calado não pareces ser...e dobrado e desengonçado também não...
Berta sorriu. Um sorriso alegre, estranhamente sincero. João sentiu-se atordoado. Como se um eclipse se tivesse abatido subitamente sobre o luar.
- então e tu?
- e eu se sou calada?
- pois...disso não tenho dúvidas. João sorriu. –...o que fazes tu?
- além de engatar gajos como tu
“Aquele sorriso outra vez” pensou João enquanto ouvia a voz doce de Berta a misturar-se numa música portuguesa da treta que pairava no ar. “Será aquele João Pedro Pais?”
- trabalho numa loja de pronto a vestir para senhoras
- boa. Aqui perto?
- sim, no Chiado
- eu também trabalho lá. Nos escritórios em cima da pastelaria
- nunca vou a essa pastelaria. É caríssima
- pois é...mas tem os melhores brigadeiros do mundo...gostas de brigadeiros?
- adoro
- havemos de ir lá um dia
- gostava muito. Vamos?
- à pastelaria?
- não, para minha casa
João sorriu.
- vamos.
Berta levantou-se e vestiu o casaco. João caminhou rumo ao seu guarda-chuva. “vê lá não me deixes mal meu malandro” pensou João. “abriu....”
- vamos os dois no guarda-chuva?
- sim
Caminharam os dois pela escuridão que se abatia nessa noite sobre Lisboa como dois cegos perdidos no mar. Desceram a Calçada do Combro e chegaram a um velho palacete no Poços dos Negros.
- vivo aqui. No segundo andar.
Subiram lentamente as escadas e chegaram a uma porta.
- 2B
- sim. Vivo aqui à já um ano. Mas agora está a ser difícil pagar...se calhar um dia mudo...
Berta acendeu a luz do pequeno apartamento. Uma só divisão com um sofá castanho, uma pequena cozinha, uma mesa com uma fruteira, duas cadeiras, e uma cama. Alguns pequenos quadros espalhados pelas paredes davam-lhe um ar acolhedor. João entrou.
- gostas?
- sim
- queres-me?
- muito
João agarrou Berta com veemência e beijou-a.
- beijas bem
- tu não
João sorriu. Agarrou ternamente a mão de Berta e encaminhou-a para a cama. O olhar de Berta era imenso para João. Berta despiu-se.
- és linda
- despe-te também
João despiu-se.
E degladiaram-se. Como um rei e a sua rainha, com ondas a abaterem-se violentamente sobre as suas almas e a ânsia do poder a inebriar-lhes o olhar. E depois veio o fim. Um fim de morte. Doce e amargo como um suicídio. Berta deitou-se sobre João.
- estás bem?
- estou...e tu?
- também
- queres um cigarro?
- sim
Fumaram o cigarro os dois perdidos no ar. Berta fixou o seu olhar no pequeno quadro em frente à cama. “Até é giro aquele quadro,” pensou. “Gosto deste gajo.” João levantou-se e pegou nas calças. Olhou para o chão. O tapete era cor café, tinha um toque confortável. Olhou para Berta deitada na cama. “Não me quero ir embora,” pensou enquanto levantava o olhar.
- queres is à pastelaria amanhã?
- quero
- pronto, estamos combinados então
- combinados
- às cinco em frente?
- sim
- não me apetece ir embora
- fica
João despiu-se e deitou-se na cama. Tapou-se, e agarrou Berta. O calor do corpo de Berta, a brandura da sua pele, o cheiro do seu cabelo. João sentiu-se como se dentro do mais quente dos cobertores, com a sua alma a parar finalmente de tremer do frio gélido que empalidece a vida. João agarrou-se forte a Berta, e adormeceu.
V.
Corre, corre e não pares!! Palhaços azuis e vermelhos saltavam por entre palácios encrustados a rubis, um cão ladrava sem cessar, e queria ferrar, queria ferrar, queria ferrar.....Pára!!!!! Pára!!!!! O sentinela morreu, a lápide cessou de gritar, já não há céu!!!!!! Já não há céu!!!!!! Porque ladrais sem cessar???? Pára!!!!! Pára!!!!! ...O MAAR.............OOO MMMMAAAARRRRR!!!!!!!!! CORRE!!!!!!!! CORRE!!!!!!!!! E NÃO PARES!!!!!!!!!! NÃO PARES!!!!!!!!!! NÃO PAAAAAAAAARES!!!!!!!!!!!!! "JOÃO, JOÃO!!!!!!..." "hhahha....uh......Berta....uh....que foi?...uh..." "Estás bem??" "Estou...estava....estou..." "Estavas a gritar a dormir" "ha...hu...acho que estava a sonhar..." João virou-se para o lado. Eram 4.22h. O leve ruído da chuva na calçada criava um som surdo sincopado no quarto. Como o coração do universo, pensou João. Fechou os olhos, e virou-se para o outro lado.
VI.
"Os seus lábios são como uns óculos," pensou João. A imagem nítida, cristalina como uma fotografia de uma câmara com milhares de pixéis, dos lábios de Berta sobrepunha-se a tudo que o rodeava. Para olhar para as letras que a sua velha Daisy lentamente cozinhava tinha de olhar por entre o acetato dos lábios de Berta. As paredes do escritório, as árvores na rua, a luz do amanhecer, as palpitações de Lisboa, tudo vinha marcado pelo acetato dos lábios de Berta. Cada pequeno contorno dos seus lábios, cada ínfima marca esculpida na sua face, estavam rasgados, escritos a fogo, na alma de João. Apetecia-lhe encher o velho caldeirão da vida com a beleza do sorriso de Berta. No sorriso de Berta escondiam-se histórias de toda uma vida, um universo de alegrias e tristezas divinamente gravadas pelo seu espírito para todo o sempre. Abraçar Berta, perder-se na ternura dos seus braços, entregar as suas feridas à infindável doçura dos seus beijos. "João??"..."..ah...sim, doutor Filigrana..."..."A minha carta já está?"..."Sim...está quase senhor doutor. Está quase."
VII.
- Porque choras?
- Deixa-me
- Então...
- Deixa-me já te disse!!!
Um estranho silêncio encheu o pequeno apartamento.
- Acho melhor ires-te embora
João estava incrédulo. Teriam sido as meias? A pasta dos dentes? Algo que tinha dito? Mas quando? O quê? Não sabia o que fazer. Estava perdido perante o olhar despido de Berta.
- Já. Não te quero ver mais. Sai daqui.
João continuava inerte, atónito.
- Vou...mas...
- SAI DAQUI!!!!!!!
A raiva que agarrava o olhar de Berta rasgou subitamente a alma de João. Baixou o olhar, pegou no casaco, e saiu. A rua estava meia deserta, algo pouco comum para uma quarta-feira à noite. “Que se passou?” João caminhava sôfrego, como um cão esfomeado. Caminhou, caminhou. Caminhou. Lisboa queria acabar nessa noite, as calçadas da cidade morriam uma lenta dor que o orvalho mastigava. “Que se passou?” João revia tudo que se havia passado. Não percebia. Que se teria passado com Berta? “Que se passou?...e agora?...uffffff....correr para quê se não tenho chão. Deitar-me porquê se não tenho sono. Sonhar porquê se não tenho ilusão. Então e agora? Como viverás tu? Como viverei eu? Ah se te pudesse soletrar a minha alma num espelho, cantá-la na silenciosa harmonia da luz que se abate sobre o meu pensar quando contigo acordo e sonho sonho sonho, sonho como um pedinte à procura de pão. Enamorei, enamoráste, enamorámos, perdemo-nos num sonho azul sem alçapão. Preciso de um whisky.” João caminhou rumo a casa. Entrou, ligou o pequeno candeeiro da sala, pegou na garrafa de whisky, e sentou-se no sofá. “Que merda. Não percebo. Estas semanas correram tão bem. Correu tudo tão bem.” João olhou para o chão demoradamente e pegou na garrafa. “Que se foda.” E bebeu. “Hã.....uff.....puhh......adormeci...foda-se...que horas são....hã....tchhhh...tou fodido.” João saiu ainda cambaleante de casa. A calma da cidade tinha-se subitamente convertido numa orquestra de lata num concerto de estádio. João navegou até ao escritório e entrou.
- Olha quem ele é...o Nuno Gomes...ahahhaha..
- Hoje não senhor António. Hoje não. Não me chateie.
- Pronto, já cá não está quem falou...ora essa...uma gracinha...
- Não me chateie.
João sentou-se na sua secretária e encostou-se na cadeira.
- Bom dia senhor João...
- Hã...olá dona Gertrudes....
- O doutor Filigrana já perguntou por si...ele está...bem....está mesmo chateado hoje...eu...eu disse-lhe o costume...que o senhor João tinha saido para comprar tabaco
- Fez bem Gertrudes. Obrigado
-...pois...mas agora é melhor ir lá ao escritório...
João levantou-se e bateu na porta do escritório do Dr Filigrana.
- Entre...
João entrou cuidadosamente no escritório do Dr. Filigrana, enquanto pensava na música que ia cantar perante o seu estimado espectador.
- ah...olha quem ele é...o meu caralho...
-...bom dia doutor Filigrana...penso que queria falar comigo...
- bom dia...pois...bom dia PARA SI!!! SEU ESTAFERMO!!! É para isso que eu lhe pago??? Para andar a passear??
- fui só comprar tabaco
- POIS DEIXE DE FUMAR MEU CARALHO!!! EU JÁ LHE DISSE...“there is no sunshine when she’s gonne, only darkness every day...there is no sunshine when she’s gone...but she is always gone..oouohooh...every time she goes away..” ....PERCEBEU MEU CARALHO??????
- Sim senhor doutor
- Então pegue-me nesse texto e dactilografe-o. PARA HOJE!!!!!!!!!!!!! E saia-me da frente. Caralho.
O dia parecia não querer passar. Até a Daisy estava apática hoje. João olhou para a rua pela janela que vivia ao lado da sua secretária. “Preciso de a ver.” Pegou no casaco.
- já venho dona Gertrudes...
- oh senhor João o....
- até logo
Era hora de almoço. O Chiado estava em alvoroço. “Se calhar ainda a apanho antes que saia.” João atravessou a rua e desceu até à loja onde trabalhava Berta. Parou em frente e acendeu um cigarro. Passados poucos minutos, Berta sai acompanhada com uma colega. João caminha na sua direcção.
- Berta?
- hã....ah....
Berta vira-se para a sua colega.
- vai andando que já lá vou ter
- está bem. Tens a certeza?
- sim...eu vou já lá ter
A colega de Berta afasta-se.
- que estás aqui a fazer meu estafermo
- precisava falar contigo
- que queres?
- explica-me pelo menos porquê
- porque estou farta de ti. Chega?
- mas, assim, de um dia para o outro...deve haver uma razão...
- não, não há razão nenhuma. Estou farta de ti, e da tua presença, e das tuas conversas da treta. Estou farta, percebes? Farta. Deixa-me em paz.
- pois eu gosto muito de ti
- gostas nada. Sabes lá o que é gostar. E sabes que mais? Quero lá saber. Desaparece.
- gosto nada?...que achas que estou aqui a fazer??
- a cuidar da tua foda
O olhar de Berta estava submerso num mar revolto. O ódio fortalecia-lhe a voz e endurecia-lhe a postura.
- não me conheces
- conheço o suficiente. Vocês são todos iguais.
- eu não
- ah...uma prima donna...
- queria-te ver. Estava desesperado. Estou desfeito por dentro. Gosto imenso de ti e...
João parou e baixou o olhar.
- vá, segue o teu caminho que eu sigo o meu. È simples.
- é assim tão difícil deixares-te amar?
- hã? Estás-te a passar? Desaparece-me da vista.
João sentiu-se então possuído por um vento de tempestade. Agarrou violentamente Berta e beijou-a sem cessar enquanto ela se debatia ferozmente para se libertar. Uma luta de titãs, com Berta a lutar contra João, e contra o céu, e o vento, e a alma, e a solidão, e o amor, e a traição, e a raiva, e a ternura. E cedeu, finalmente cedeu, derrotada, como um rio desnudado frente ao mar. Agarrou-se vigorosamente a João e beijou-o com a força das montanhas que lhe apertavam o ventre, com o desejo que a agarrava como um vulcão. E acalmaram. Como dois amantes exaustos após uma noite interminável em Alexandria. Ficaram ali abraçados, pendentes num segundo interminável, enquanto os transeuntes iam passando no movimentado Chiado. Berta encostou a sua cabeça no peito de João.
- um dia vais embora como os outros
João abraçou-a com mais intensidade.
- não vou nada
- todos vão. Um dia fartas-te e queres foder outra
- gosto muito de te foder a ti
- ou então farto-me eu e quero eu foder outro
- nessa altura pensamos nisso
- não digas que não te avisei
- gostas de mim?
- gosto, pronto. E depois?
- Já ouviste Dee Dee Bridgewater?
- hã?..
- to love and be loved in return
- sim...
- Gostarmos de alguém que também gosta de nós. Não acontece assim tantas vezes como isso sabes...e depois vemos...sei lá...depois vemos...
- depois vemos...pois...não sei...agora é tudo tão mais fácil...
Berta olhou para o chão.
- não é nada. Não sabes.
Berta levantou o olhar.
- não sei o quê?
- não sabes nada aparte o que sabes agora.
Berta sorriu.
- o meu poeta...
- empregado de escritório
João sorriu.
- um brigadeiro?
- sim...
Deram as mãos e seguiram rumo ao horizonte perdido naquela tarde em Lisboa.
Domingo, 7 de Junho de 2009
REENCONTRO
Perdi-me num sonho impossível. Não sei se foi o mar que me enganou, os pássaros que me iludiram, os ventos que me confundiram. O teu perfume que me desorientou. Acordei assim, perdido, a naufragar sobre um lago cristalino que soletrava palavras de cor doce. Pois que fazer? A bússola perdera-a nos teus olhos, o mapa na tua voz. A alma nas tuas mãos. Decidi fechar os olhos e entregar-me, abandonado, ao teu olhar. Quem sabe, quando os meus olhos de novo se abrirem, te reencontrem onde se perderam.
Sábado, 6 de Junho de 2009
ASAS DE CONDOR
Asas de condor. Eis o que me faz falta. Umas asas largas como o horizonte, que abram e fechem como sonhos perdidos no mar. Asas que sirvam para tudo e para nada. Sim, se tivesse asas ia com elas para a praia e usava-as como guarda-sol. Das penas velhas fazia almofadas. Nos dias de frio usava-as como cobertor. E voava. Voos sem fim, a sobrevoar oceanos, florestas, cidades e aldeias. Veria o mundo todo com os meus olhos. Eis o que me faz falta. Umas asas de condor. Mas não tenho asas nem penso vir a tê-las. Restas-me pois tu. Restam-me os teus olhos, doces como brisas, os teus cabelos, onde me envolves num sonho eterno, as tuas mãos, onde me perco na imensidáo do silêncio. Não tenho asas. Mas encontrei-te a ti.
AS LÁGRIMAS FORAM AO CIRCO
- Porque chorais senhor?
- Não choro. São as lágrimas que correm. Decidiram passear.
- Assim? Sem mais?
- Sim. Não sabiam o que fazer. Ontem foram ao circo. Anteontem tinhamos ido ao cinema. Hoje lembraram-se de passear pela minha face. Percorrer os socalcos marcados pelo tempo e visitar as intempéries da alma que ficaram gravadas na minha pele. Disse-lhes para ficarem em casa que estava frio. Mas não me deram ouvidos. Vieram passear.
- Então não chorais...
- Não. Eu nunca choro. Abraço os ventos que se levantam fortes nos oceanos, grito aos deuses que se escondem nos mares, rasgo as velas do horizonte.
- Mas nunca chorais. Pois. E amais porventura senhor?
-....amar..... Pois. Traz-me o jornal e um café. E cala-te.
- Não choro. São as lágrimas que correm. Decidiram passear.
- Assim? Sem mais?
- Sim. Não sabiam o que fazer. Ontem foram ao circo. Anteontem tinhamos ido ao cinema. Hoje lembraram-se de passear pela minha face. Percorrer os socalcos marcados pelo tempo e visitar as intempéries da alma que ficaram gravadas na minha pele. Disse-lhes para ficarem em casa que estava frio. Mas não me deram ouvidos. Vieram passear.
- Então não chorais...
- Não. Eu nunca choro. Abraço os ventos que se levantam fortes nos oceanos, grito aos deuses que se escondem nos mares, rasgo as velas do horizonte.
- Mas nunca chorais. Pois. E amais porventura senhor?
-....amar..... Pois. Traz-me o jornal e um café. E cala-te.
Domingo, 24 de Agosto de 2008
TOBIAS
"Uma moeda no bolso..." pensou Tobias. Coçada, com a cor dos raios do céu que iluminavam a velha aldeia de Alflores nos finais das tardes de verão. "...50 cêntimos..." Tobias sorriu "..já ganhei o dia." Envolveu a velha moeda na sua mão, armou o seu sorriso e continuou a sua caminhada pelos campos luzidios que circundavam a velha aldeia. Havia algo assustadoramente vivo que soprava como o vento norte de Outono nesse dia dentro de Tobias. Uma cascata que lutava no seu peito, por entre labirintos de estruturas metálicas. Tobias não acreditava em barragens. "Os pássaros voam livres", pensou ele. Vagueava Tobias absorto nestes pensamentos quando encontrou uma velha no caminho. "Sempre a sonhar Tobias! Vê lá se tratas mas é desses dentes podres ou não arranjas moça!" Tobias olhou para a velha e sentiu novamente a sua velha moeda na mão. Sorriu e seguiu o seu caminho. Tobias olhou para o horizonte. Era vasto, imenso. Ao longe montanhas jaziam erigidas por trás de uma ténue névoa, tão longínqua quão suave. Tudo parecia inerte, absolutamente imóvel, estranhamente alheado dos ventos que giravam incessantemente no seu peito. Tobias decidiu então sentar-se numa pedra no sopé da montanha, a contemplar o infinito que se desenrolava ante seus olhos. As palavras da velha ressoavam dentro de si, como um sino sincopadamente alertando o seu ser. Como havia Tobias de dizer à velha que era por trás dos seus dentes podres que se escondia a força dos mil sóis, os ventos que levantam oceanos e bramem rugidos de mil leões? Tobias gostava deles assim. Neles encontrava todos os seus dias a sua história, neles desenhou cada manhã o seu mais belo sorriso. E Tobias sorriu, um sorriso do tamanho de um homem, orgulhosamente benzendo a sua alma com a autenticidade do seu sentir. Os ventos sopraram então fortes. Tobias levantou-se, agarrou com força a sua moeda, e começou a caminhar rumo ao sol. Era tempo de dar uso à sua moeda e ousar comprar o céu.
Domingo, 18 de Maio de 2008
O DIA EM QUE DEUS MORREU (Nova Iorque, 2002)
“Eu próprio me ofereço ao meu amor […], assim falam todos os criadores.”
Nietzsche in Assim Falou Zaratrusta
1.
Hoje vi-te
com
asas
num corpo
esforçado
de vermelho.
Uma força
com a cor
da noite
e o pesar
de um gigante.
Reconheci-te
nos muros
que levanto
à procura
do ser.
Olhei para ti e
disse-te
que o céu
é azul.
E, como sol
escondido
por trás
de uma nuvem,
as tuas costas
perderam
as curvas
e o teu corpo
pairou leve
numa brisa
azul
por entre
branco.
Uma gaivota
azul
a voar
no infinito.
Ao ver-te,
quis
abrir
a porta
da gaiola
onde te tenho
preso.
Apercebi-me então que estava
preso
contigo,
com as chaves
para abrir a porta
ao alcance
do meu sonho.
Estávamos os dois
juntos
na gaiola.
Tu a não voar
para que eu pudesse
caminhar,
eu a caminhar
para que tu pudesses
voar.
Vi-te frágil
e delicado
como uma
pétala
de infinita
harmonia e,
com mãos
duras
de
lavrador,
agarrei-te
com a força
da fidelidade
e pus o meu corpo
em frente
aos ventos.
E duro,
com a cara queimada
pelo sol,
dei-te
a minha vida.
2.
Sombras sem caras dançam escondidas
em torres perdidas no mar.
Véus que suspiram pesar cuspido em amar,
sem que amar nao fosse.
Beijadas como paredes, como terminações
do que não tem fim.
Vasos à frente, amados com angústia
pelas flores.
Espelhos do que não é sendo.
Brisas amargas de tulipas choram
as pedras da traição, e clamam
gritando pelo suspiro do silêncio.
A gota no mar quer ser gota,
não mar.
Corre por entre campos de verde e vermelho,
escorre, suspira, amordaça, chicoteia,
ama.
Onde está o meu mar?
Onde está o meu mar?
Faça-se silêncio!
Um deus vai morrer.
Prepare-se a cerimónia, vistam-se
as estátuas de brandura,
queime-se o ímpeto do que morreu sem morrer.
Ah amargura do querer ser, inocente
prostituta que me acaricias o sexo com a luxúria.
Sim,
quero-te possuir. Quero-te ter.
Corre no meu sexo,
chama-me deus.
Estou vivo!
Estou vivo!
Perde-te no caos existência sem pesar.
Sublima-te no teu cheiro a cão. Ladra.
Livros beijam cabelos,
porque um dia hás-de uivar.
Em frente à lua,
quem lá foi para contar.
Gotas de mar sem mar no mar.
É apenas mar. Lambe o sublime.
2.
Tentação de ir brincar
com o mar
e esquecermo-nos
da areia.
Aprendo com os mestres.
Tem cinco anos e faz castelos
de areia.
Ao mar,
vai tomar o seu banho.
Depois
volta
à areia.
Brinca no castelo e conforta-se
com o sol.
Esse sol que antes do mar
queima
e depois do mar
beija.
A frescura do sal.
Brinco com ele.
É ele que canta,
é ele que chora,
é ele que brinca.
E eu, aqui,
longe no perto,
crio sinfonias
à sua inocência.
Aos seus gritos,
aos seus sussurros,
aos seus sorrisos.
Sou um homem que gosta
de ver
crianças
felizes.
Esvaio-me nos ventos e observo-o
a brincar
feliz
enquanto conheço o mundo
reflectido
na inocência
dos seus olhos.
Há que saber ser um bom
pai.
Há que saber ser uma boa
amante.
Há que saber ser um bom
irmão.
Diz-se educação.
Há que saber educar para se ser
analfabeto.
Há que ser sábio.
Beijá-lo com a ignorância.
3.
Troco as montanhas pelo mar.
Esvaio-me na pureza das ondas azuis
e deixo a montanha branca a brilhar lá ao longe.
Vejo a montanha lá ao fundo e,
como farol para um barco,
diz-me onde estou.
E assim, naufrago sem naufragar.
Para quê perder-me se me posso perder encontrado?
Porque é possível estar sem ser
e ser sem estar,
eu prefiro estar e ser.
Quem só é sem estar,
perde o que é ser o estar.
Para isso tenho todo o sempre,
quando um dia voar e for de novo ar.
Agora quero estar. Sendo.
Um homem no seu tempo.
Um homem sem tempo.
Sou e estou.
Em paz.
4.
Há um teatro que se esconde nos meus sonhos
onde tu me beijas
sendo eu.
Cantas amor para mim e enches-me
de vermelhos
e mares
que fluem sobre
a minha pele,
beijando-a
com o cheiro forte da carne.
Nesse teatro eu sou eu
e tu és eu.
Vejo-te a ti e a mim
como um espectador apaixonado
por um quadro de sublimação
do querer e,
de fora,
jogo contigo
e comigo
num jogo de marionetes
em que tu falas para mim e
eu falo para ti.
Falas comigo e mostras-me
a beleza esquecida
na imensidão
do nada.
Estás tão perto e tão longe
que perco-me.
Perco-me e encontro-te.
No meio do teatro.
5.
Entre chuvas sem vazio
bramindo vozes de oceanos
deixo-me arrastar pelos ventos que sopram forte.
Não há montanha que não suba,
não há pedra que não abra por entre rochas de rios.
A força que beija o mar perdido nas montanhas do infinito.
A minha força.
6.
Agarro-te com as mãos duras,
mães endurecidas
pelos calos
da paixão.
Sublimo-te com um abraço
que se deita
em pedras cruas,
que se afoga
nas entranhas que me ardem.
Fogo que me rasgas,
flor que brames em gritos brancos,
sangue que escorre do teu ventre.
Estátuas de mar,
ventos de tempestade
que agarro
com a força dos meus braços
e amo
como pétalas perdidas
numa lágrima de criança.
Agarro esses ventos que levantam árvores
e beijo-os
com a paixão
do meu corpo
suado, porco,
de te amar.
Ah, sonho azul que me rasgas as entranhas.
Anda, vem,
que te vou agarrar
em gritos de silêncio
por entre esses olhos que amam
perdidos no mar.
Esse teu toque brando
que me afoga
de encontro às paredes deitadas sobre
os corpos
que me cortaram a carne.
Cortem-me malditos
que vos vou amar
como putas, como deusas, como seios desenhados
em carne
com sabor ao teu sexo.
Luto contigo como corpo contra barro
moldo-te e moldas-me
no meio deste fogo que arde
sem ar.
Perdi-me em ti amor.
Na tua brisa
cor de maresia.
Na graça com que beijaste
meu pudor.
7.
Fui nadar num rio guardado por deusas que sorriem brisas.
Caminhei nu sem nudez.
Musas sorriam como aves por entre nuvens.
Senti gotas de água suavemente a entrar
nos poros da minha pele.
Senti poeiras escondidas no vento
a beijarem cada recanto do meu corpo.
Senti cada pequeno nada escondido
na imensidão do teu olhar.
De repente, tudo encaixou sem encaixar.
Um sorriso com lágrimas azuis de êxtase
e um sentimento de vitrais de cor branca.
Uma força de infinita paixão beijada com a mais bela serenidade.
E, finalmente, percebi.
Já sabia.
Sempre soubera.
8.
São ondas que acalmo no medo de não te encontrar.
Ah, se me desses um raio de luz num sorriso!
Por ti levantaria mares,
por ti abriria rochas,
por ti
beijaria o sol.
9.
Sinto as palavras gastas.
Escavadas,
cheiradas.
Quero cantar mas
perco-me
em ti.
Em cada palavra,
sinto o teu cheiro
a agarrar-me
a garganta,
como um beijo,
como uma trinca que enche
todo o meu corpo
de mar
perdido em amar.
Não mais consigo escrever,
pois cada palavra
já não é palavra.
Sao ventos com que me agarras,
vulcões de água
com que me beijas,
subo e desço,
atiro-me aos ventos,
caio de montanhas,
mares de vertigens
que rugem
em todo o meu corpo.
Já não são palavras.
São danças de beijos,
histórias de amor,
sinfonias
da nossa secreta insignificância.
Sim, és tu.
Doce bicho,
apaixonado deus.
Sim, és tu que inflamas meu peito,
que ardes meus olhos,
que me atiras como um dardo
de encontro
ao infinito
de teu amar.
Ah, mar que ardes em minha alma,
infinitude de cores que bramem sentir
pintado em convulsões animais
que me matam,
e me fazem nascer
e correr
e beijar
e trovejar
e cantar
e amar.
Caminho já como espectador
de teu sentir,
agarrando cada tua lágrima com a força
de meus braços,
transformando cada teu grito
numa estátua,
imortalizando teu sentir
em meus olhos.
És musa, és deusa,
és um harmonioso silêncio que beija
com a tua paz
um doce bicho e o faz rugir sinfonias
de ternura
que me ardem o peito.
Perdi as palavras.
Ouço apenas silêncio
em cores de mar.
10.
Flutua harmonioso silêncio.
Suspira esse vento azul
que arde
em meus olhos.
11.
Fui invadido pela indiferença
ao amargo sentir abraçando
teu pueril amar.
Sou agora um homem
de corpo forte e austero
sem fala.
Caminho ao teu lado em silêncio,
subindo-te em meus braços
quando queres ver o mar que passa.
Meu corpo,
uso-o para te proteger dos
ventos que sopram fortes nas ruas.
Já não te julgo,
já não te calo.
Apenas caminho contigo,
mão em mão, mudo,
abrindo as portas em que queres entrar.
Ver-te sorrir é benção
que me ilumina em branco,
ver-te amar
é em ti morrer
e eu
deixar de ser.
12.
Lembro-me de um dia em que ouvi
o sol
e não vi luz.
Confundido,
parei a olhar
para as paredes.
Eram altas,
fortes,
sólidas,
cimentadas com a água
da trágica virtude.
Dei-lhes um beijo,
e choraram.
Não percebi.
Porque choravam
tão sólidas
paredes?
E assim,
triste
pelo seu choro,
cada tijolo tirei e
cada tijolo beijei.
Quando acabei,
os tijolos
haviam desaparecido.
Morreras.
Adeus
meu tão grande amor.
Nietzsche in Assim Falou Zaratrusta
1.
Hoje vi-te
com
asas
num corpo
esforçado
de vermelho.
Uma força
com a cor
da noite
e o pesar
de um gigante.
Reconheci-te
nos muros
que levanto
à procura
do ser.
Olhei para ti e
disse-te
que o céu
é azul.
E, como sol
escondido
por trás
de uma nuvem,
as tuas costas
perderam
as curvas
e o teu corpo
pairou leve
numa brisa
azul
por entre
branco.
Uma gaivota
azul
a voar
no infinito.
Ao ver-te,
quis
abrir
a porta
da gaiola
onde te tenho
preso.
Apercebi-me então que estava
preso
contigo,
com as chaves
para abrir a porta
ao alcance
do meu sonho.
Estávamos os dois
juntos
na gaiola.
Tu a não voar
para que eu pudesse
caminhar,
eu a caminhar
para que tu pudesses
voar.
Vi-te frágil
e delicado
como uma
pétala
de infinita
harmonia e,
com mãos
duras
de
lavrador,
agarrei-te
com a força
da fidelidade
e pus o meu corpo
em frente
aos ventos.
E duro,
com a cara queimada
pelo sol,
dei-te
a minha vida.
2.
Sombras sem caras dançam escondidas
em torres perdidas no mar.
Véus que suspiram pesar cuspido em amar,
sem que amar nao fosse.
Beijadas como paredes, como terminações
do que não tem fim.
Vasos à frente, amados com angústia
pelas flores.
Espelhos do que não é sendo.
Brisas amargas de tulipas choram
as pedras da traição, e clamam
gritando pelo suspiro do silêncio.
A gota no mar quer ser gota,
não mar.
Corre por entre campos de verde e vermelho,
escorre, suspira, amordaça, chicoteia,
ama.
Onde está o meu mar?
Onde está o meu mar?
Faça-se silêncio!
Um deus vai morrer.
Prepare-se a cerimónia, vistam-se
as estátuas de brandura,
queime-se o ímpeto do que morreu sem morrer.
Ah amargura do querer ser, inocente
prostituta que me acaricias o sexo com a luxúria.
Sim,
quero-te possuir. Quero-te ter.
Corre no meu sexo,
chama-me deus.
Estou vivo!
Estou vivo!
Perde-te no caos existência sem pesar.
Sublima-te no teu cheiro a cão. Ladra.
Livros beijam cabelos,
porque um dia hás-de uivar.
Em frente à lua,
quem lá foi para contar.
Gotas de mar sem mar no mar.
É apenas mar. Lambe o sublime.
2.
Tentação de ir brincar
com o mar
e esquecermo-nos
da areia.
Aprendo com os mestres.
Tem cinco anos e faz castelos
de areia.
Ao mar,
vai tomar o seu banho.
Depois
volta
à areia.
Brinca no castelo e conforta-se
com o sol.
Esse sol que antes do mar
queima
e depois do mar
beija.
A frescura do sal.
Brinco com ele.
É ele que canta,
é ele que chora,
é ele que brinca.
E eu, aqui,
longe no perto,
crio sinfonias
à sua inocência.
Aos seus gritos,
aos seus sussurros,
aos seus sorrisos.
Sou um homem que gosta
de ver
crianças
felizes.
Esvaio-me nos ventos e observo-o
a brincar
feliz
enquanto conheço o mundo
reflectido
na inocência
dos seus olhos.
Há que saber ser um bom
pai.
Há que saber ser uma boa
amante.
Há que saber ser um bom
irmão.
Diz-se educação.
Há que saber educar para se ser
analfabeto.
Há que ser sábio.
Beijá-lo com a ignorância.
3.
Troco as montanhas pelo mar.
Esvaio-me na pureza das ondas azuis
e deixo a montanha branca a brilhar lá ao longe.
Vejo a montanha lá ao fundo e,
como farol para um barco,
diz-me onde estou.
E assim, naufrago sem naufragar.
Para quê perder-me se me posso perder encontrado?
Porque é possível estar sem ser
e ser sem estar,
eu prefiro estar e ser.
Quem só é sem estar,
perde o que é ser o estar.
Para isso tenho todo o sempre,
quando um dia voar e for de novo ar.
Agora quero estar. Sendo.
Um homem no seu tempo.
Um homem sem tempo.
Sou e estou.
Em paz.
4.
Há um teatro que se esconde nos meus sonhos
onde tu me beijas
sendo eu.
Cantas amor para mim e enches-me
de vermelhos
e mares
que fluem sobre
a minha pele,
beijando-a
com o cheiro forte da carne.
Nesse teatro eu sou eu
e tu és eu.
Vejo-te a ti e a mim
como um espectador apaixonado
por um quadro de sublimação
do querer e,
de fora,
jogo contigo
e comigo
num jogo de marionetes
em que tu falas para mim e
eu falo para ti.
Falas comigo e mostras-me
a beleza esquecida
na imensidão
do nada.
Estás tão perto e tão longe
que perco-me.
Perco-me e encontro-te.
No meio do teatro.
5.
Entre chuvas sem vazio
bramindo vozes de oceanos
deixo-me arrastar pelos ventos que sopram forte.
Não há montanha que não suba,
não há pedra que não abra por entre rochas de rios.
A força que beija o mar perdido nas montanhas do infinito.
A minha força.
6.
Agarro-te com as mãos duras,
mães endurecidas
pelos calos
da paixão.
Sublimo-te com um abraço
que se deita
em pedras cruas,
que se afoga
nas entranhas que me ardem.
Fogo que me rasgas,
flor que brames em gritos brancos,
sangue que escorre do teu ventre.
Estátuas de mar,
ventos de tempestade
que agarro
com a força dos meus braços
e amo
como pétalas perdidas
numa lágrima de criança.
Agarro esses ventos que levantam árvores
e beijo-os
com a paixão
do meu corpo
suado, porco,
de te amar.
Ah, sonho azul que me rasgas as entranhas.
Anda, vem,
que te vou agarrar
em gritos de silêncio
por entre esses olhos que amam
perdidos no mar.
Esse teu toque brando
que me afoga
de encontro às paredes deitadas sobre
os corpos
que me cortaram a carne.
Cortem-me malditos
que vos vou amar
como putas, como deusas, como seios desenhados
em carne
com sabor ao teu sexo.
Luto contigo como corpo contra barro
moldo-te e moldas-me
no meio deste fogo que arde
sem ar.
Perdi-me em ti amor.
Na tua brisa
cor de maresia.
Na graça com que beijaste
meu pudor.
7.
Fui nadar num rio guardado por deusas que sorriem brisas.
Caminhei nu sem nudez.
Musas sorriam como aves por entre nuvens.
Senti gotas de água suavemente a entrar
nos poros da minha pele.
Senti poeiras escondidas no vento
a beijarem cada recanto do meu corpo.
Senti cada pequeno nada escondido
na imensidão do teu olhar.
De repente, tudo encaixou sem encaixar.
Um sorriso com lágrimas azuis de êxtase
e um sentimento de vitrais de cor branca.
Uma força de infinita paixão beijada com a mais bela serenidade.
E, finalmente, percebi.
Já sabia.
Sempre soubera.
8.
São ondas que acalmo no medo de não te encontrar.
Ah, se me desses um raio de luz num sorriso!
Por ti levantaria mares,
por ti abriria rochas,
por ti
beijaria o sol.
9.
Sinto as palavras gastas.
Escavadas,
cheiradas.
Quero cantar mas
perco-me
em ti.
Em cada palavra,
sinto o teu cheiro
a agarrar-me
a garganta,
como um beijo,
como uma trinca que enche
todo o meu corpo
de mar
perdido em amar.
Não mais consigo escrever,
pois cada palavra
já não é palavra.
Sao ventos com que me agarras,
vulcões de água
com que me beijas,
subo e desço,
atiro-me aos ventos,
caio de montanhas,
mares de vertigens
que rugem
em todo o meu corpo.
Já não são palavras.
São danças de beijos,
histórias de amor,
sinfonias
da nossa secreta insignificância.
Sim, és tu.
Doce bicho,
apaixonado deus.
Sim, és tu que inflamas meu peito,
que ardes meus olhos,
que me atiras como um dardo
de encontro
ao infinito
de teu amar.
Ah, mar que ardes em minha alma,
infinitude de cores que bramem sentir
pintado em convulsões animais
que me matam,
e me fazem nascer
e correr
e beijar
e trovejar
e cantar
e amar.
Caminho já como espectador
de teu sentir,
agarrando cada tua lágrima com a força
de meus braços,
transformando cada teu grito
numa estátua,
imortalizando teu sentir
em meus olhos.
És musa, és deusa,
és um harmonioso silêncio que beija
com a tua paz
um doce bicho e o faz rugir sinfonias
de ternura
que me ardem o peito.
Perdi as palavras.
Ouço apenas silêncio
em cores de mar.
10.
Flutua harmonioso silêncio.
Suspira esse vento azul
que arde
em meus olhos.
11.
Fui invadido pela indiferença
ao amargo sentir abraçando
teu pueril amar.
Sou agora um homem
de corpo forte e austero
sem fala.
Caminho ao teu lado em silêncio,
subindo-te em meus braços
quando queres ver o mar que passa.
Meu corpo,
uso-o para te proteger dos
ventos que sopram fortes nas ruas.
Já não te julgo,
já não te calo.
Apenas caminho contigo,
mão em mão, mudo,
abrindo as portas em que queres entrar.
Ver-te sorrir é benção
que me ilumina em branco,
ver-te amar
é em ti morrer
e eu
deixar de ser.
12.
Lembro-me de um dia em que ouvi
o sol
e não vi luz.
Confundido,
parei a olhar
para as paredes.
Eram altas,
fortes,
sólidas,
cimentadas com a água
da trágica virtude.
Dei-lhes um beijo,
e choraram.
Não percebi.
Porque choravam
tão sólidas
paredes?
E assim,
triste
pelo seu choro,
cada tijolo tirei e
cada tijolo beijei.
Quando acabei,
os tijolos
haviam desaparecido.
Morreras.
Adeus
meu tão grande amor.
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