<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-7160661139686212626</id><updated>2011-07-30T18:45:45.996-07:00</updated><title type='text'>CHAIN'S APART</title><subtitle type='html'>Poemas e Contos</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://chainsapart.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7160661139686212626/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chainsapart.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Mike Chain</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08186895225677844182</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5NkqOUYuzqE/S1iVEWPGbUI/AAAAAAAAAG4/riB7_BVhDnM/S220/foto+blog.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>8</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7160661139686212626.post-7876465508604163424</id><published>2010-10-07T15:15:00.000-07:00</published><updated>2010-10-07T15:16:01.634-07:00</updated><title type='text'>"Blue and Orange" - Nova Iorque 2002</title><content type='html'>Today I walked through the white mountains&lt;br /&gt;hidden in the echoes of my silence. &lt;br /&gt;As I walked, an old farmer flew through&lt;br /&gt;my solitude and, sweet as a small&lt;br /&gt;girl, danced through sheets of white velvet&lt;br /&gt;gently held by the sun.&lt;br /&gt;I touched him and recognized burned smiles&lt;br /&gt;in damp bodies dreaming the passion of the &lt;br /&gt;nothing.&lt;br /&gt;Flowing in the northern wind, I ran, &lt;br /&gt;lost in the vastness of an orange field, &lt;br /&gt;over the anxious speed of a forgotten dream.&lt;br /&gt;As the morning came, wild flowers cried &lt;br /&gt;in the warmth of a breeze while the wind,&lt;br /&gt;filled with the incense of the sea,&lt;br /&gt;promised a whisper.&lt;br /&gt;And, gentle, from the gist of my tears an&lt;br /&gt;harmony of silence kissed my lips. I was you.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7160661139686212626-7876465508604163424?l=chainsapart.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://chainsapart.blogspot.com/feeds/7876465508604163424/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7160661139686212626&amp;postID=7876465508604163424' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7160661139686212626/posts/default/7876465508604163424'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7160661139686212626/posts/default/7876465508604163424'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chainsapart.blogspot.com/2010/10/blue-and-orange-nova-iorque-2002.html' title='&quot;Blue and Orange&quot; - Nova Iorque 2002'/><author><name>Mike Chain</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08186895225677844182</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5NkqOUYuzqE/S1iVEWPGbUI/AAAAAAAAAG4/riB7_BVhDnM/S220/foto+blog.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7160661139686212626.post-6652111122953558360</id><published>2010-01-02T17:26:00.000-08:00</published><updated>2010-10-07T15:17:48.747-07:00</updated><title type='text'>"Horizonte Perdido" - Lisboa Março 2010</title><content type='html'>I.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um dia cinzento. Não soturno ou triste. Pura e simplesmente cinzento. Como uma nuvem sobre o luar. João saíra apressadamente de casa. Olhava o eléctrico, lento, a deslizar como um velho senhor que se passeia alegremente num escorrega, e tropeçou. "Uma pena de alcatraz" reparou ele incrédulo. Sim, de alcatraz. Só um alcatraz poderia ter uma pena assim. Era uma pena distinta, com um peso de mil árvores e mil sóis, suficiente para derrubar o mais poderoso dos exércitos. João olhava absorto para a sua pena. Voara sobre o imenso mundo, sentira intermináveis oceanos de som perdidos no ar, ouvira os penosos segredos dos ventos fortes suspirados em si. E era cinzenta, como as nuvens que teimavam em não desaparecer esta manhã. João acendeu um cigarro e pôs-se a passo. Tinha 10 minutos para chegar ao trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era tarde. Os minutos esvaiam-se por entre as mãos de João como preciosas pérolas, douradas, brancas, vermelhas, com cheiros imensos de mundo. O Sr. António não se fez rogado e imediatamente disparou a sua habitual graçola futebolística "Fazes-me lembrar o Nuno Gomes. Chega sempre. Mas fora do tempo...Ahahahah!!" João não sabia quantas vezes havia já ouvido aquela graçola. De cada vez achava-a mais hilariante. Não que achasse especial interesse ao Nuno Gomes, como poderia ele, ou que visse especial relevância em ter um registo personalizado de atrasos, mas gostava de se imaginar como um jogador perdido no campo. Um jogador que corria atrás de um pássaro que sobrevoava o estádio, que se sentava a conversar com quem por lá gravitava, que se entretinha a trocar piadas de café com os guarda-redes enquanto a acção se desenvolvia no outro hemisfério do estádio. Sim, este era o tipo de jogador que o mundo precisava, pensava João com o riso esboçado enquanto se sentava em frente à sua velha Daisy. Era um tesouro esta Daisy. As teclas já estavam coçadas nos sítios certos, o rolo de escrever já exalava um elixir mágico com incensos arábicos e odor de café. Estava bem amestrada. Um trabalho de anos, a passar cada carta do Sr. Dr. Esteves Cardoso de Filigrana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Onde está esse caralho?" O vento soprava lento dentro do escritório. A pequena janela do quarto de arrumações criava uma brisa agradável com o ar que suspirava por baixo das portas. "Onde está esse caralho?" A luz era ténue essa manhã. A velha cortina rendada, outrora branca, dava à luz que ousava entrar no pequeno escritório um tom afável, terno, doce. "Onde está esse caralho porra?" "...bem....senhor doutor....o...o....João foi à rua...comprar tabaco sabe...mas...mas disse que já vinha..." Gertrudes ficava sempre em pânico com os ataques de fúria do Dr. Filigrana. Não sabia se era a voz, os olhos arregalados, as pestanas a subirem ao nível da careca, a imponência da barriga a ameaçar rebentar as calças e disparar um botão assassino pela sala. "Um dia despeço esse caralho. Ele que venha ao meu escritório assim que chegar. Caralho." Tudo revestia um carácter assustador para Gertrudes quando o Dr. Filigrana irrompia nas suas habituais fúrias. Pássaros de cem bicos sobrevoavam o escritório, ondas atrozes irrompiam pelo armário da máquina de café, chamas do tamanho de montanhas consumiam a pequena fotografia com dois gatinhos ternamente pousada na sua velha secretária. "E traga-me um café...caralho." Era tempo de pôr mãos à obra e amansar o velho leão. Gertrudes correu para o armário, pegou, trémula, mas viva, na chávena branca do Dr. Filigrana, inspeccionou-a cuidadosamente em busca de qualquer poeira perdida, e preparou sem demora o café. Curto, mas não sem menos de dois dedos de café, doce, mas exactamente na fronteira que separa a doçura da acidez, quente, mas apenas o suficiente para garantir uma espera não inferior a um minuto e não superior a dois, o tempo exacto que o Dr Filigrana habitualmente demorava a tocar na sua chávena de café. Aprende-se muita coisa em trinta e cinco anos. Até a amar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A noite.” pensou Berta. Uma noite dura, a esfumaçar o infinito em cada brisa, a espalmar o horizonte em cada esquina. “E o bairro alto vazio. Preciso mesmo de foder hoje.” Berta sentia os grafittis e o mijo naquelas paredes como seus. A alma rasgava-lhe o sexo, o desejo ensurdecia-lhe o olhar. Dois putos fumavam um charro em frente ao Portão Verde. Lou Reed enchia o ar frio da noite. Berta decidiu entrar. &lt;br /&gt;- Uma cerveja &lt;br /&gt;- Tenho super-bock e cristal&lt;br /&gt;- super-bock&lt;br /&gt;- ah...1 euro se faz favor&lt;br /&gt;- hmm...só tenho notas&lt;br /&gt;- Jeremias??&lt;br /&gt;Um adolescente franzino surgiu do fundo do bar, a escuridão ensobrava-lhe o olhar, a luz esmorecida reflectia-se subtilmente no seu andar. &lt;br /&gt;- Tens troco para dez euros?&lt;br /&gt;- ah...deixa ver....tenho&lt;br /&gt;- dá cá&lt;br /&gt;Berta olhou-o. O olhar de Berta desconcertou-o. O infinito que irradiava dos olhos de Berta gritava um silêncio ensurdecedor. Jeremias parou, subitamente meio inerte, a ondular no ar como se perdido no absurdo. A sua fragilidade irritou Berta. &lt;br /&gt;- Aqui tem&lt;br /&gt;- hm....obrigado.&lt;br /&gt;Berta decidiu sentar-se. O bar estava vazio. Além da velhota do bar e de Jeremias, apenas um rasta entretido a jogar uma velha máquina de pacman encostada frente ao bar, enchia o lugar. Berta acendeu um cigarro e olhou para a rua. Tinha começado a chover. A chuva lavava a rua perante o olhar perdido de Berta. Já tudo a incomodava. O pequeno apartamento no Poço dos Negros, a clientela da loja, a D. Amália e as suas contínuas ameaças de despejo. Berta estava farta de todos eles, de todos os dias, de todas as caras, de todos os lugares. A impaciência ardia-lhe a alma, o ímpeto de se lançar no ar e perder-se num infinito longe do mundo petrificava-lhe o olhar. “Porra......hmm.....este guarda-chuva é uma treta...lá não fecha outra vez...hmm....pronto.....” Até o guarda-chuva estava a emperrar. Já não bastava o chato do Dr Filigrana com a sua carta de hoje, a Daisy que tinha partido uma tecla, agora o guarda-chuva. O mundo parecia que tinha subitamente emperrado, como uma rebarbadora, pensou João. O Portão Verde estava meio vazio como de costume. Exactamente como João gostava. Avançou até ao bar e pediu uma cerveja. &lt;br /&gt;- olá senhor joão&lt;br /&gt;- olá dona ana...bem disposta?&lt;br /&gt;- lá se vai andando...o senhor sabe como é...&lt;br /&gt;- pois..&lt;br /&gt;- ...é...enfim...mas hoje pelo menos já tenho dois clientes...pode ser que a noite ainda corra bem...mas a chover....isto assim.....e ainda ter o Jeremias para sustentar sozinha....&lt;br /&gt;João sorriu. Não se lembrava de algum dia ter visto a D. Ana sorridente. Não chegava nunca muito bem a perceber porquê, mas para ele fazia já parte do charme do Portão Verde. Os queixumes da D. Ana, o som da máquina do pacman, a rádio sempre com música ligada, os velhos cartazes do Teatro S. Carlos, a recordar as velhas glórias da D. Ana, já enegrecidos pelo fumo e pelo passar dos anos, tudo isto reconfortava João como um leve bafo num cigarro. Decidiu sentar-se. &lt;br /&gt;- Tem lume?&lt;br /&gt;- ..hã....tenho...&lt;br /&gt;João estendeu o braço e acendeu o seu bic.&lt;br /&gt;- hmm....obrigado &lt;br /&gt;- de nada&lt;br /&gt;- posso-me sentar?&lt;br /&gt;- claro &lt;br /&gt;- chamo-me berta &lt;br /&gt;- olá....joão&lt;br /&gt;- vens cá muitas vezes?&lt;br /&gt;- sim, algumas&lt;br /&gt;- eu nunca cá tinha vindo...és de Lisboa?&lt;br /&gt;- não, sou do Porto&lt;br /&gt;Berta sorriu.&lt;br /&gt;- pareço-te estranha com tantas perguntas?&lt;br /&gt;João sorriu. &lt;br /&gt;- não...és curiosa...&lt;br /&gt;- muito &lt;br /&gt;- eu também&lt;br /&gt;- posso-te levar para minha casa?&lt;br /&gt;- agora?&lt;br /&gt;- sim &lt;br /&gt;- podes&lt;br /&gt;- não te vais arrepender&lt;br /&gt;- eu nunca me arrependo. Ter remorsos é ser indecente para a consciência.&lt;br /&gt;- ah...um poeta....&lt;br /&gt;- não...empregado de escritório&lt;br /&gt;- que engraçado, não me pareces nada o tipo&lt;br /&gt;- há um tipo?&lt;br /&gt;- há, claro que há...dobrado, desengonçado, calado...bom...calado não pareces ser...e dobrado e desengonçado também não...&lt;br /&gt;Berta sorriu. Um sorriso alegre, estranhamente sincero. João sentiu-se atordoado. Como se um eclipse se tivesse abatido subitamente sobre o luar. &lt;br /&gt;- então e tu?&lt;br /&gt;- e eu se sou calada?&lt;br /&gt;- pois...disso não tenho dúvidas. João sorriu. –...o que fazes tu?&lt;br /&gt;- além de engatar gajos como tu &lt;br /&gt;“Aquele sorriso outra vez” pensou João enquanto ouvia a voz doce de Berta a misturar-se numa música portuguesa da treta que pairava no ar. “Será aquele João Pedro Pais?” &lt;br /&gt;- trabalho numa loja de pronto a vestir para senhoras&lt;br /&gt;- boa. Aqui perto?&lt;br /&gt;- sim, no Chiado&lt;br /&gt;- eu também trabalho lá. Nos escritórios em cima da pastelaria&lt;br /&gt;- nunca vou a essa pastelaria. É caríssima&lt;br /&gt;- pois é...mas tem os melhores brigadeiros do mundo...gostas de brigadeiros?&lt;br /&gt;- adoro&lt;br /&gt;- havemos de ir lá um dia&lt;br /&gt;- gostava muito. Vamos?&lt;br /&gt;- à pastelaria?&lt;br /&gt;- não, para minha casa&lt;br /&gt;João sorriu.&lt;br /&gt;- vamos.&lt;br /&gt;Berta levantou-se e vestiu o casaco. João caminhou rumo ao seu guarda-chuva. “vê lá não me deixes mal meu malandro” pensou João. “abriu....”&lt;br /&gt;- vamos os dois no guarda-chuva?&lt;br /&gt;- sim&lt;br /&gt;Caminharam os dois pela escuridão que se abatia nessa noite sobre Lisboa como dois cegos perdidos no mar. Desceram a Calçada do Combro e chegaram a um velho palacete no Poços dos Negros.&lt;br /&gt;- vivo aqui. No segundo andar.&lt;br /&gt;Subiram lentamente as escadas e chegaram a uma porta. &lt;br /&gt;- 2B&lt;br /&gt;- sim. Vivo aqui à já um ano. Mas agora está a ser difícil pagar...se calhar um dia mudo...&lt;br /&gt;Berta acendeu a luz do pequeno apartamento. Uma só divisão com um sofá castanho, uma pequena cozinha, uma mesa com uma fruteira, duas cadeiras, e uma cama. Alguns pequenos quadros espalhados pelas paredes davam-lhe um ar acolhedor. João entrou.&lt;br /&gt;- gostas?&lt;br /&gt;- sim&lt;br /&gt;- queres-me?&lt;br /&gt;- muito&lt;br /&gt;João agarrou Berta com veemência e beijou-a.&lt;br /&gt;- beijas bem&lt;br /&gt;- tu não&lt;br /&gt;João sorriu. Agarrou ternamente a mão de Berta e encaminhou-a para a cama. O olhar de Berta era imenso para João. Berta despiu-se. &lt;br /&gt;- és linda&lt;br /&gt;- despe-te também&lt;br /&gt;João despiu-se. &lt;br /&gt;E degladiaram-se. Como um rei e a sua rainha, com ondas a abaterem-se violentamente sobre as suas almas e a ânsia do poder a inebriar-lhes o olhar. E depois veio o fim. Um fim de morte. Doce e amargo como um suicídio. Berta deitou-se sobre João.&lt;br /&gt;- estás bem?&lt;br /&gt;- estou...e tu?&lt;br /&gt;- também&lt;br /&gt;- queres um cigarro?&lt;br /&gt;- sim&lt;br /&gt;Fumaram o cigarro os dois perdidos no ar. Berta fixou o seu olhar no pequeno quadro em frente à cama. “Até é giro aquele quadro,” pensou. “Gosto deste gajo.” João levantou-se e pegou nas calças. Olhou para o chão. O tapete era cor café, tinha um toque confortável. Olhou para Berta deitada na cama. “Não me quero ir embora,” pensou enquanto levantava o olhar.&lt;br /&gt;- queres is à pastelaria amanhã?&lt;br /&gt;- quero&lt;br /&gt;- pronto, estamos combinados então&lt;br /&gt;- combinados&lt;br /&gt;- às cinco em frente?&lt;br /&gt;- sim&lt;br /&gt;- não me apetece ir embora&lt;br /&gt;- fica&lt;br /&gt;João despiu-se e deitou-se na cama. Tapou-se, e agarrou Berta. O calor do corpo de Berta, a brandura da sua pele, o cheiro do seu cabelo. João sentiu-se como se dentro do mais quente dos cobertores, com a sua alma a parar finalmente de tremer do frio gélido que empalidece a vida. João agarrou-se forte a Berta, e adormeceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;V.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corre, corre e não pares!! Palhaços azuis e vermelhos saltavam por entre palácios encrustados a rubis, um cão ladrava sem cessar, e queria ferrar, queria ferrar, queria ferrar.....Pára!!!!! Pára!!!!! O sentinela morreu, a lápide cessou de gritar, já não há céu!!!!!! Já não há céu!!!!!! Porque ladrais sem cessar???? Pára!!!!! Pára!!!!! ...O MAAR.............OOO MMMMAAAARRRRR!!!!!!!!! CORRE!!!!!!!! CORRE!!!!!!!!! E NÃO PARES!!!!!!!!!! NÃO PARES!!!!!!!!!! NÃO PAAAAAAAAARES!!!!!!!!!!!!! "JOÃO, JOÃO!!!!!!..." "hhahha....uh......Berta....uh....que foi?...uh..." "Estás bem??" "Estou...estava....estou..." "Estavas a gritar a dormir" "ha...hu...acho que estava a sonhar..." João virou-se para o lado. Eram 4.22h. O leve ruído da chuva na calçada criava um som surdo sincopado no quarto. Como o coração do universo, pensou João. Fechou os olhos, e virou-se para o outro lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VI.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Os seus lábios são como uns óculos," pensou João. A imagem nítida, cristalina como uma fotografia de uma câmara com milhares de pixéis, dos lábios de Berta sobrepunha-se a tudo que o rodeava. Para olhar para as letras que a sua velha Daisy lentamente cozinhava tinha de olhar por entre o acetato dos lábios de Berta. As paredes do escritório, as árvores na rua, a luz do amanhecer, as palpitações de Lisboa, tudo vinha marcado pelo acetato dos lábios de Berta. Cada pequeno contorno dos seus lábios, cada ínfima marca esculpida na sua face, estavam rasgados, escritos a fogo, na alma de João. Apetecia-lhe encher o velho caldeirão da vida com a beleza do sorriso de Berta. No sorriso de Berta escondiam-se histórias de toda uma vida, um universo de alegrias e tristezas divinamente gravadas pelo seu espírito para todo o sempre. Abraçar Berta, perder-se na ternura dos seus braços, entregar as suas feridas à infindável doçura dos seus beijos. "João??"..."..ah...sim, doutor Filigrana..."..."A minha carta já está?"..."Sim...está quase senhor doutor. Está quase."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VII.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Porque choras?&lt;br /&gt;- Deixa-me&lt;br /&gt;- Então...&lt;br /&gt;- Deixa-me já te disse!!!&lt;br /&gt;Um estranho silêncio encheu o pequeno apartamento.&lt;br /&gt;- Acho melhor ires-te embora&lt;br /&gt;João estava incrédulo. Teriam sido as meias? A pasta dos dentes? Algo que tinha dito? Mas quando? O quê? Não sabia o que fazer. Estava perdido perante o olhar despido de Berta.&lt;br /&gt;- Já. Não te quero ver mais. Sai daqui.&lt;br /&gt;João continuava inerte, atónito.&lt;br /&gt;- Vou...mas...&lt;br /&gt;- SAI DAQUI!!!!!!!&lt;br /&gt;A raiva que agarrava o olhar de Berta rasgou subitamente a alma de João. Baixou o olhar, pegou no casaco, e saiu. A rua estava meia deserta, algo pouco comum para uma quarta-feira à noite. “Que se passou?” João caminhava sôfrego, como um cão esfomeado. Caminhou, caminhou. Caminhou. Lisboa queria acabar nessa noite, as calçadas da cidade morriam uma lenta dor que o orvalho mastigava. “Que se passou?” João revia tudo que se havia passado. Não percebia. Que se teria passado com Berta? “Que se passou?...e agora?...uffffff....correr para quê se não tenho chão. Deitar-me porquê se não tenho sono. Sonhar porquê se não tenho ilusão. Então e agora? Como viverás tu? Como viverei eu? Ah se te pudesse soletrar a minha alma num espelho, cantá-la na silenciosa harmonia da luz que se abate sobre o meu pensar quando contigo acordo e sonho sonho sonho, sonho como um pedinte à procura de pão. Enamorei, enamoráste, enamorámos, perdemo-nos num sonho azul sem alçapão. Preciso de um whisky.” João caminhou rumo a casa. Entrou, ligou o pequeno candeeiro da sala, pegou na garrafa de whisky, e sentou-se no sofá. “Que merda. Não percebo. Estas semanas correram tão bem. Correu tudo tão bem.” João olhou para o chão demoradamente e pegou na garrafa. “Que se foda.” E bebeu. “Hã.....uff.....puhh......adormeci...foda-se...que horas são....hã....tchhhh...tou fodido.” João saiu ainda cambaleante de casa. A calma da cidade tinha-se subitamente convertido numa orquestra de lata num concerto de estádio. João navegou até ao escritório e entrou. &lt;br /&gt;- Olha quem ele é...o Nuno Gomes...ahahhaha..&lt;br /&gt;- Hoje não senhor António. Hoje não. Não me chateie.&lt;br /&gt;- Pronto, já cá não está quem falou...ora essa...uma gracinha...&lt;br /&gt;- Não me chateie.&lt;br /&gt;João sentou-se na sua secretária e encostou-se na cadeira.&lt;br /&gt;- Bom dia senhor João...&lt;br /&gt;- Hã...olá dona Gertrudes....&lt;br /&gt;- O doutor Filigrana já perguntou por si...ele está...bem....está mesmo chateado hoje...eu...eu disse-lhe o costume...que o senhor João tinha saido para comprar tabaco&lt;br /&gt;- Fez bem Gertrudes. Obrigado&lt;br /&gt;-...pois...mas agora é melhor ir lá ao escritório...&lt;br /&gt;João levantou-se e bateu na porta do escritório do Dr Filigrana.&lt;br /&gt;- Entre...&lt;br /&gt;João entrou cuidadosamente no escritório do Dr. Filigrana, enquanto pensava na música que ia cantar perante o seu estimado espectador.&lt;br /&gt;- ah...olha quem ele é...o meu caralho...&lt;br /&gt;-...bom dia doutor Filigrana...penso que queria falar comigo...&lt;br /&gt;- bom dia...pois...bom dia PARA SI!!! SEU ESTAFERMO!!! É para isso que eu lhe pago??? Para andar a passear??&lt;br /&gt;- fui só comprar tabaco&lt;br /&gt;- POIS DEIXE DE FUMAR MEU CARALHO!!! EU JÁ LHE DISSE...“there is no sunshine when she’s gonne, only darkness every day...there is no sunshine when she’s gone...but she is always gone..oouohooh...every time she goes away..” ....PERCEBEU MEU CARALHO??????&lt;br /&gt;- Sim senhor doutor&lt;br /&gt;- Então pegue-me nesse texto e dactilografe-o. PARA HOJE!!!!!!!!!!!!! E saia-me da frente. Caralho.&lt;br /&gt;O dia parecia não querer passar. Até a Daisy estava apática hoje. João olhou para a rua pela janela que vivia ao lado da sua secretária. “Preciso de a ver.” Pegou no casaco.&lt;br /&gt;- já venho dona Gertrudes...&lt;br /&gt;- oh senhor João o....&lt;br /&gt;- até logo&lt;br /&gt;Era hora de almoço. O Chiado estava em alvoroço. “Se calhar ainda a apanho antes que saia.” João atravessou a rua e desceu até à loja onde trabalhava Berta. Parou em frente e acendeu um cigarro. Passados poucos minutos, Berta sai acompanhada com uma colega. João caminha na sua direcção.&lt;br /&gt;- Berta?&lt;br /&gt;- hã....ah....&lt;br /&gt;Berta vira-se para a sua colega.&lt;br /&gt;- vai andando que já lá vou ter&lt;br /&gt;- está bem. Tens a certeza?&lt;br /&gt;- sim...eu vou já lá ter&lt;br /&gt;A colega de Berta afasta-se.&lt;br /&gt;- que estás aqui a fazer meu estafermo&lt;br /&gt;- precisava falar contigo&lt;br /&gt;- que queres?&lt;br /&gt;- explica-me pelo menos porquê&lt;br /&gt;- porque estou farta de ti. Chega?&lt;br /&gt;- mas, assim, de um dia para o outro...deve haver uma razão...&lt;br /&gt;- não, não há razão nenhuma. Estou farta de ti, e da tua presença, e das tuas conversas da treta. Estou farta, percebes? Farta. Deixa-me em paz.&lt;br /&gt;- pois eu gosto muito de ti&lt;br /&gt;- gostas nada. Sabes lá o que é gostar. E sabes que mais? Quero lá saber. Desaparece.&lt;br /&gt;- gosto nada?...que achas que estou aqui a fazer??&lt;br /&gt;- a cuidar da tua foda&lt;br /&gt;O olhar de Berta estava submerso num mar revolto. O ódio fortalecia-lhe a voz e endurecia-lhe a postura.&lt;br /&gt;- não me conheces&lt;br /&gt;- conheço o suficiente. Vocês são todos iguais.&lt;br /&gt;- eu não&lt;br /&gt;- ah...uma prima donna...&lt;br /&gt;- queria-te ver. Estava desesperado. Estou desfeito por dentro. Gosto imenso de ti e...&lt;br /&gt;João parou e baixou o olhar. &lt;br /&gt;- vá, segue o teu caminho que eu sigo o meu. È simples.&lt;br /&gt;- é assim tão difícil deixares-te amar?&lt;br /&gt;- hã? Estás-te a passar? Desaparece-me da vista.&lt;br /&gt;João sentiu-se então possuído por um vento de tempestade. Agarrou violentamente Berta e beijou-a sem cessar enquanto ela se debatia ferozmente para se libertar. Uma luta de titãs, com Berta a lutar contra João, e contra o céu, e o vento, e a alma, e a solidão, e o amor, e a traição, e a raiva, e a ternura. E cedeu, finalmente cedeu, derrotada, como um rio desnudado frente ao mar. Agarrou-se vigorosamente a João e beijou-o com a força das montanhas que lhe apertavam o ventre, com o desejo que a agarrava como um vulcão. E acalmaram. Como dois amantes exaustos após uma noite interminável em Alexandria. Ficaram ali abraçados, pendentes num segundo interminável, enquanto os transeuntes iam passando no movimentado Chiado. Berta encostou a sua cabeça no peito de João.  &lt;br /&gt;- um dia vais embora como os outros&lt;br /&gt;João abraçou-a com mais intensidade.&lt;br /&gt; - não vou nada&lt;br /&gt;- todos vão. Um dia fartas-te e queres foder outra&lt;br /&gt;- gosto muito de te foder a ti&lt;br /&gt;- ou então farto-me eu e quero eu foder outro&lt;br /&gt;- nessa altura pensamos nisso&lt;br /&gt;- não digas que não te avisei&lt;br /&gt;- gostas de mim?&lt;br /&gt;- gosto, pronto. E depois?&lt;br /&gt;- Já ouviste Dee Dee Bridgewater?&lt;br /&gt;- hã?..&lt;br /&gt;- to love and be loved in return&lt;br /&gt;- sim...&lt;br /&gt;- Gostarmos de alguém que também gosta de nós. Não acontece assim tantas vezes como isso sabes...e depois vemos...sei lá...depois vemos...&lt;br /&gt;- depois vemos...pois...não sei...agora é tudo tão mais fácil...&lt;br /&gt;Berta olhou para o chão.&lt;br /&gt;- não é nada. Não sabes.&lt;br /&gt;Berta levantou o olhar.&lt;br /&gt;- não sei o quê?&lt;br /&gt;- não sabes nada aparte o que sabes agora.&lt;br /&gt;Berta sorriu.&lt;br /&gt;- o meu poeta...&lt;br /&gt;- empregado de escritório&lt;br /&gt;João sorriu.&lt;br /&gt;- um brigadeiro?&lt;br /&gt;- sim...&lt;br /&gt;Deram as mãos e seguiram rumo ao horizonte perdido naquela tarde em Lisboa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7160661139686212626-6652111122953558360?l=chainsapart.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://chainsapart.blogspot.com/feeds/6652111122953558360/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7160661139686212626&amp;postID=6652111122953558360' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7160661139686212626/posts/default/6652111122953558360'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7160661139686212626/posts/default/6652111122953558360'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chainsapart.blogspot.com/2010/01/i.html' title='&quot;Horizonte Perdido&quot; - Lisboa Março 2010'/><author><name>Mike Chain</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08186895225677844182</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5NkqOUYuzqE/S1iVEWPGbUI/AAAAAAAAAG4/riB7_BVhDnM/S220/foto+blog.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7160661139686212626.post-2970659429490433444</id><published>2009-06-07T07:04:00.001-07:00</published><updated>2010-03-24T23:34:05.368-07:00</updated><title type='text'>REENCONTRO</title><content type='html'>Perdi-me num sonho impossível. Não sei se foi o mar que me enganou, os pássaros que me iludiram, os ventos que me confundiram. O teu perfume que me desorientou. Acordei assim, perdido, a naufragar sobre um lago cristalino que soletrava palavras de cor doce. Pois que fazer? A bússola perdera-a nos teus olhos, o mapa na tua voz. A alma nas tuas mãos. Decidi fechar os olhos e entregar-me, abandonado, ao teu olhar. Quem sabe, quando os meus olhos de novo se abrirem, te reencontrem onde se perderam.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7160661139686212626-2970659429490433444?l=chainsapart.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://chainsapart.blogspot.com/feeds/2970659429490433444/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7160661139686212626&amp;postID=2970659429490433444' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7160661139686212626/posts/default/2970659429490433444'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7160661139686212626/posts/default/2970659429490433444'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chainsapart.blogspot.com/2009/06/perdi-me-num-sonho-impossivel.html' title='REENCONTRO'/><author><name>Mike Chain</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08186895225677844182</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5NkqOUYuzqE/S1iVEWPGbUI/AAAAAAAAAG4/riB7_BVhDnM/S220/foto+blog.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7160661139686212626.post-4107479674617246710</id><published>2009-06-06T18:31:00.000-07:00</published><updated>2010-03-24T23:33:48.586-07:00</updated><title type='text'>ASAS DE CONDOR</title><content type='html'>Asas de condor. Eis o que me faz falta. Umas asas largas como o horizonte, que abram e fechem como sonhos perdidos no mar. Asas que sirvam para tudo e para nada. Sim, se tivesse asas ia com elas para a praia e usava-as como guarda-sol. Das penas velhas fazia almofadas. Nos dias de frio usava-as como cobertor. E voava. Voos sem fim, a sobrevoar oceanos, florestas, cidades e aldeias. Veria o mundo todo com os meus olhos. Eis o que me faz falta. Umas asas de condor. Mas não tenho asas nem penso vir a tê-las. Restas-me pois tu. Restam-me os teus olhos, doces como brisas, os teus cabelos, onde me envolves num sonho eterno, as tuas mãos, onde me perco na imensidáo do silêncio. Não tenho asas. Mas encontrei-te a ti.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7160661139686212626-4107479674617246710?l=chainsapart.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://chainsapart.blogspot.com/feeds/4107479674617246710/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7160661139686212626&amp;postID=4107479674617246710' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7160661139686212626/posts/default/4107479674617246710'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7160661139686212626/posts/default/4107479674617246710'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chainsapart.blogspot.com/2009/06/asas-de-condor.html' title='ASAS DE CONDOR'/><author><name>Mike Chain</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08186895225677844182</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5NkqOUYuzqE/S1iVEWPGbUI/AAAAAAAAAG4/riB7_BVhDnM/S220/foto+blog.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7160661139686212626.post-2955078735697615660</id><published>2009-06-06T18:14:00.000-07:00</published><updated>2010-03-24T23:34:43.058-07:00</updated><title type='text'>AS LÁGRIMAS FORAM AO CIRCO</title><content type='html'>- Porque chorais senhor? &lt;br /&gt;- Não choro. São as lágrimas que correm. Decidiram passear. &lt;br /&gt;- Assim? Sem mais? &lt;br /&gt;- Sim. Não sabiam o que fazer. Ontem foram ao circo. Anteontem tinhamos ido ao cinema. Hoje lembraram-se de passear pela minha face. Percorrer os socalcos marcados pelo tempo e visitar as intempéries da alma que ficaram gravadas na minha pele. Disse-lhes para ficarem em casa que estava frio. Mas não me deram ouvidos. Vieram passear. &lt;br /&gt;- Então não chorais... &lt;br /&gt;- Não. Eu nunca choro. Abraço os ventos que se levantam fortes nos oceanos, grito aos deuses que se escondem nos mares, rasgo as velas do horizonte.  &lt;br /&gt;- Mas nunca chorais. Pois. E amais porventura senhor? &lt;br /&gt;-....amar..... Pois. Traz-me o jornal e um café. E cala-te.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7160661139686212626-2955078735697615660?l=chainsapart.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://chainsapart.blogspot.com/feeds/2955078735697615660/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7160661139686212626&amp;postID=2955078735697615660' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7160661139686212626/posts/default/2955078735697615660'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7160661139686212626/posts/default/2955078735697615660'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chainsapart.blogspot.com/2009/06/porque-chorais-senhor-nao-choro.html' title='AS LÁGRIMAS FORAM AO CIRCO'/><author><name>Mike Chain</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08186895225677844182</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5NkqOUYuzqE/S1iVEWPGbUI/AAAAAAAAAG4/riB7_BVhDnM/S220/foto+blog.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7160661139686212626.post-1503411002380665959</id><published>2008-08-24T11:06:00.000-07:00</published><updated>2010-03-24T23:35:05.423-07:00</updated><title type='text'>TOBIAS</title><content type='html'>"Uma moeda no bolso..." pensou Tobias. Coçada, com a cor dos raios do céu que iluminavam a velha aldeia de Alflores nos finais das tardes de verão. "...50 cêntimos..." Tobias sorriu "..já ganhei o dia." Envolveu a velha moeda na sua mão, armou o seu sorriso e continuou a sua caminhada pelos campos luzidios que circundavam a velha aldeia. Havia algo assustadoramente vivo que soprava como o vento norte de Outono nesse dia dentro de Tobias. Uma cascata que lutava no seu peito, por entre labirintos de estruturas metálicas. Tobias não acreditava em barragens. "Os pássaros voam livres", pensou ele. Vagueava Tobias absorto nestes pensamentos quando encontrou uma velha no caminho. "Sempre a sonhar Tobias! Vê lá se tratas mas é desses dentes podres ou não arranjas moça!" Tobias olhou para a velha e sentiu novamente a sua velha moeda na mão. Sorriu e seguiu o seu caminho. Tobias olhou para o horizonte. Era vasto, imenso. Ao longe montanhas jaziam erigidas por trás de uma ténue névoa, tão longínqua quão suave. Tudo parecia inerte, absolutamente imóvel, estranhamente alheado dos ventos que giravam incessantemente no seu peito. Tobias decidiu então sentar-se numa pedra no sopé da montanha, a contemplar o infinito que se desenrolava ante seus olhos. As palavras da velha ressoavam dentro de si, como um sino sincopadamente alertando o seu ser. Como havia Tobias de dizer à velha que era por trás dos seus dentes podres que se escondia a força dos mil sóis, os ventos que levantam oceanos e bramem rugidos de mil leões? Tobias gostava deles assim. Neles encontrava todos os seus dias a sua história, neles desenhou cada manhã o seu mais belo sorriso. E Tobias sorriu, um sorriso do tamanho de um homem, orgulhosamente benzendo a sua alma com a autenticidade do seu sentir. Os ventos sopraram então fortes. Tobias levantou-se, agarrou com força a sua moeda, e começou a caminhar rumo ao sol. Era tempo de dar uso à sua moeda e ousar comprar o céu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7160661139686212626-1503411002380665959?l=chainsapart.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://chainsapart.blogspot.com/feeds/1503411002380665959/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7160661139686212626&amp;postID=1503411002380665959' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7160661139686212626/posts/default/1503411002380665959'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7160661139686212626/posts/default/1503411002380665959'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chainsapart.blogspot.com/2008/08/uma-moeda-no-bolso.html' title='TOBIAS'/><author><name>Mike Chain</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08186895225677844182</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5NkqOUYuzqE/S1iVEWPGbUI/AAAAAAAAAG4/riB7_BVhDnM/S220/foto+blog.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7160661139686212626.post-2606266642517431297</id><published>2008-05-18T04:18:00.000-07:00</published><updated>2010-03-24T23:36:45.478-07:00</updated><title type='text'>O DIA EM QUE DEUS MORREU (Nova Iorque, 2002)</title><content type='html'>“Eu próprio me ofereço ao meu amor […], assim falam todos os criadores.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nietzsche in Assim Falou Zaratrusta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje vi-te &lt;br /&gt;com &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;asas &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;num corpo &lt;br /&gt;esforçado &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de vermelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma força &lt;br /&gt;com a cor &lt;br /&gt;da noite &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e o pesar &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de um gigante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reconheci-te &lt;br /&gt;nos muros &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que levanto &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;à procura &lt;br /&gt;do ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para ti e &lt;br /&gt;disse-te &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que o céu &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;é azul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, como sol &lt;br /&gt;escondido&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;por trás &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de uma nuvem,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;as tuas costas &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;perderam &lt;br /&gt;as curvas &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e o teu corpo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pairou leve &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;numa brisa &lt;br /&gt;azul &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;por entre &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;branco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma gaivota &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;azul &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a voar &lt;br /&gt;no infinito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao ver-te, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;quis &lt;br /&gt;abrir &lt;br /&gt;a porta &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;da gaiola&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;onde te tenho &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;preso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apercebi-me então que estava &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;preso &lt;br /&gt;contigo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;com as chaves &lt;br /&gt;para abrir a porta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ao alcance &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;do meu sonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos os dois &lt;br /&gt;juntos &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;na gaiola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu a não voar &lt;br /&gt;para que eu pudesse &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;caminhar,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu a caminhar &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;para que tu pudesses &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;voar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vi-te frágil &lt;br /&gt;e delicado &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;como uma&lt;br /&gt;pétala &lt;br /&gt;de infinita &lt;br /&gt;harmonia e, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;com mãos &lt;br /&gt;duras &lt;br /&gt;de &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;lavrador,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;agarrei-te &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;com a força &lt;br /&gt;da fidelidade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e pus o meu corpo &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;em frente &lt;br /&gt;aos ventos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E duro, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;com a cara queimada &lt;br /&gt;pelo sol,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;dei-te &lt;br /&gt;a minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sombras sem caras dançam escondidas &lt;br /&gt;em torres perdidas no mar.&lt;br /&gt;Véus que suspiram pesar cuspido em amar,&lt;br /&gt;sem que amar nao fosse.&lt;br /&gt;Beijadas como paredes, como terminações&lt;br /&gt;do que não tem fim.&lt;br /&gt;Vasos à frente, amados com angústia&lt;br /&gt;pelas flores.&lt;br /&gt;Espelhos do que não é sendo.&lt;br /&gt;Brisas amargas de tulipas choram&lt;br /&gt;as pedras da traição, e clamam&lt;br /&gt;gritando pelo suspiro do silêncio.&lt;br /&gt;A gota no mar quer ser gota, &lt;br /&gt;não mar.&lt;br /&gt;Corre por entre campos de verde e vermelho,&lt;br /&gt;escorre, suspira, amordaça, chicoteia,&lt;br /&gt;ama.&lt;br /&gt;Onde está o meu mar? &lt;br /&gt;Onde está o meu mar?&lt;br /&gt;Faça-se silêncio!&lt;br /&gt;Um deus vai morrer.&lt;br /&gt;Prepare-se a cerimónia, vistam-se &lt;br /&gt;as estátuas de brandura, &lt;br /&gt;queime-se o ímpeto do que morreu sem morrer.&lt;br /&gt;Ah amargura do querer ser, inocente&lt;br /&gt;prostituta que me acaricias o sexo com a luxúria.&lt;br /&gt;Sim, &lt;br /&gt;quero-te possuir. Quero-te ter.&lt;br /&gt;Corre no meu sexo, &lt;br /&gt;chama-me deus.&lt;br /&gt;Estou vivo!&lt;br /&gt;Estou vivo!&lt;br /&gt;Perde-te no caos existência sem pesar.&lt;br /&gt;Sublima-te no teu cheiro a cão. Ladra.&lt;br /&gt;Livros beijam cabelos,&lt;br /&gt;porque um dia hás-de uivar.&lt;br /&gt;Em frente à lua,&lt;br /&gt;quem lá foi para contar.&lt;br /&gt;Gotas de mar sem mar no mar.&lt;br /&gt;É apenas mar. Lambe o sublime.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentação de ir brincar &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;com o mar &lt;br /&gt;e esquecermo-nos &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;da areia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aprendo com os mestres. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem cinco anos e faz castelos &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de areia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao mar, &lt;br /&gt;vai tomar o seu banho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois &lt;br /&gt;volta &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;à areia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brinca no castelo e conforta-se &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;com o sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse sol que antes do mar &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;queima &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e depois do mar &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;beija. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A frescura do sal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brinco com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É ele que canta, &lt;br /&gt;é ele que chora, &lt;br /&gt;é ele que brinca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu, aqui, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;longe no perto, &lt;br /&gt;crio sinfonias &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;à sua inocência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos seus gritos, &lt;br /&gt;aos seus sussurros, &lt;br /&gt;aos seus sorrisos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou um homem que gosta &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de ver&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;crianças &lt;br /&gt;felizes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esvaio-me nos ventos e observo-o &lt;br /&gt;a brincar &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;feliz &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;enquanto conheço o mundo &lt;br /&gt;reflectido &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;na inocência &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;dos seus olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há que saber ser um bom &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há que saber ser uma boa &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;amante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há que saber ser um bom &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;irmão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diz-se educação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há que saber educar para se ser &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;analfabeto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há que ser sábio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beijá-lo com a ignorância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Troco as montanhas pelo mar.&lt;br /&gt;Esvaio-me na pureza das ondas azuis&lt;br /&gt;e deixo a montanha branca a brilhar lá ao longe.&lt;br /&gt;Vejo a montanha lá ao fundo e,&lt;br /&gt;como farol para um barco,&lt;br /&gt;diz-me onde estou.&lt;br /&gt;E assim, naufrago sem naufragar.&lt;br /&gt;Para quê perder-me se me posso perder encontrado?&lt;br /&gt;Porque é possível estar sem ser&lt;br /&gt;e ser sem estar,&lt;br /&gt;eu prefiro estar e ser.&lt;br /&gt;Quem só é sem estar,&lt;br /&gt;perde o que é ser o estar.&lt;br /&gt;Para isso tenho todo o sempre,&lt;br /&gt;quando um dia voar e for de novo ar.&lt;br /&gt;Agora quero estar. Sendo.&lt;br /&gt;Um homem no seu tempo.&lt;br /&gt;Um homem sem tempo.&lt;br /&gt;Sou e estou.&lt;br /&gt;Em paz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um teatro que se esconde nos meus sonhos &lt;br /&gt;onde tu me beijas &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sendo eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cantas amor para mim e enches-me &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de vermelhos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e mares &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que fluem sobre &lt;br /&gt;a minha pele, &lt;br /&gt;beijando-a &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;com o cheiro forte da carne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse teatro eu sou eu &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e tu és eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejo-te a ti e a mim &lt;br /&gt;como um espectador apaixonado &lt;br /&gt;por um quadro de sublimação&lt;br /&gt;do querer e, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de fora, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;jogo contigo &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e comigo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;num jogo de marionetes &lt;br /&gt;em que tu falas para mim e &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu falo para ti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falas comigo e mostras-me&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a beleza esquecida &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;na imensidão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;do nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estás tão perto e tão longe &lt;br /&gt;que perco-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perco-me e encontro-te.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meio do teatro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre chuvas sem vazio &lt;br /&gt;bramindo vozes de oceanos &lt;br /&gt;deixo-me arrastar pelos ventos que sopram forte.&lt;br /&gt;Não há montanha que não suba,&lt;br /&gt;não há pedra que não abra por entre rochas de rios.&lt;br /&gt;A força que beija o mar perdido nas montanhas do infinito.&lt;br /&gt;A minha força.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agarro-te com as mãos duras,&lt;br /&gt;mães endurecidas &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pelos calos &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;da paixão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sublimo-te com um abraço &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que se deita&lt;br /&gt;em pedras cruas,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que se afoga &lt;br /&gt;nas entranhas que me ardem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fogo que me rasgas,&lt;br /&gt;flor que brames em gritos brancos,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sangue que escorre do teu ventre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estátuas de mar,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ventos de tempestade &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que agarro &lt;br /&gt;com a força dos meus braços&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e amo &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;como pétalas perdidas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;numa lágrima de criança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agarro esses ventos que levantam árvores&lt;br /&gt;e beijo-os &lt;br /&gt;com a paixão &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;do meu corpo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;suado, porco, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de te amar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, sonho azul que me rasgas as entranhas.&lt;br /&gt;Anda, vem, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que te vou agarrar &lt;br /&gt;em gritos de silêncio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;por entre esses olhos que amam &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;perdidos no mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse teu toque brando &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que me afoga&lt;br /&gt;de encontro às paredes deitadas sobre&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;os corpos &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que me cortaram a carne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cortem-me malditos &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que vos vou amar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;como putas, como deusas, como seios desenhados &lt;br /&gt;em carne &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;com sabor ao teu sexo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luto contigo como corpo contra barro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;moldo-te e moldas-me&lt;br /&gt;no meio deste fogo que arde &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sem ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdi-me em ti amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na tua brisa &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;cor de maresia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na graça com que beijaste &lt;br /&gt;meu pudor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui nadar num rio guardado por deusas que sorriem brisas.&lt;br /&gt;Caminhei nu sem nudez.&lt;br /&gt;Musas sorriam como aves por entre nuvens.&lt;br /&gt;Senti gotas de água suavemente a entrar &lt;br /&gt;nos poros da minha pele.&lt;br /&gt;Senti poeiras escondidas no vento &lt;br /&gt;a beijarem cada recanto do meu corpo.&lt;br /&gt;Senti cada pequeno nada escondido&lt;br /&gt;na imensidão do teu olhar.&lt;br /&gt;De repente, tudo encaixou sem encaixar.&lt;br /&gt;Um sorriso com lágrimas azuis de êxtase &lt;br /&gt;e um sentimento de vitrais de cor branca.&lt;br /&gt;Uma força de infinita paixão beijada com a mais bela serenidade.&lt;br /&gt;E, finalmente, percebi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já sabia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre soubera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São ondas que acalmo no medo de não te encontrar.&lt;br /&gt;Ah, se me desses um raio de luz num sorriso!&lt;br /&gt;Por ti levantaria mares, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;por ti abriria rochas, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;por ti&lt;br /&gt;beijaria o sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;9.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto as palavras gastas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escavadas, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;cheiradas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero cantar mas &lt;br /&gt;perco-me &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;em ti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em cada palavra, &lt;br /&gt;sinto o teu cheiro &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a agarrar-me &lt;br /&gt;a garganta,&lt;br /&gt;como um beijo, &lt;br /&gt;como uma trinca que enche &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;todo o meu corpo &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de mar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;perdido em amar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não mais consigo escrever, &lt;br /&gt;pois cada palavra &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;já não é palavra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sao ventos com que me agarras, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vulcões de água &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;com que me beijas,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;subo e desço, &lt;br /&gt;atiro-me aos ventos,&lt;br /&gt;caio de montanhas,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mares de vertigens &lt;br /&gt;que rugem &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;em todo o meu corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já não são palavras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São danças de beijos, &lt;br /&gt;histórias de amor,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sinfonias &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;da nossa secreta insignificância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, és tu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Doce bicho,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;apaixonado deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, és tu que inflamas meu peito,&lt;br /&gt;que ardes meus olhos,&lt;br /&gt;que me atiras como um dardo &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de encontro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ao infinito &lt;br /&gt;de teu amar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, mar que ardes em minha alma,&lt;br /&gt;infinitude de cores que bramem sentir&lt;br /&gt;pintado em convulsões animais&lt;br /&gt;que me matam, &lt;br /&gt;e me fazem nascer&lt;br /&gt;e correr &lt;br /&gt;e beijar &lt;br /&gt;e trovejar&lt;br /&gt;e cantar &lt;br /&gt;e amar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminho já como espectador&lt;br /&gt;de teu sentir,&lt;br /&gt;agarrando cada tua lágrima com a força &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de meus braços,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;transformando cada teu grito &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;numa estátua,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;imortalizando teu sentir &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;em meus olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;És musa, és deusa,&lt;br /&gt;és um harmonioso silêncio que beija &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;com a tua paz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;um doce bicho e o faz rugir sinfonias &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de ternura&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que me ardem o peito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdi as palavras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouço apenas silêncio &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;em cores de mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Flutua harmonioso silêncio. &lt;br /&gt;Suspira esse vento azul &lt;br /&gt;que arde &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;em meus olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;11.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui invadido pela indiferença&lt;br /&gt;ao amargo sentir abraçando&lt;br /&gt;teu pueril amar.&lt;br /&gt;Sou agora um homem&lt;br /&gt;de corpo forte e austero&lt;br /&gt;sem fala.&lt;br /&gt;Caminho ao teu lado em silêncio,&lt;br /&gt;subindo-te em meus braços&lt;br /&gt;quando queres ver o mar que passa.&lt;br /&gt;Meu corpo,&lt;br /&gt;uso-o para te proteger dos&lt;br /&gt;ventos que sopram fortes nas ruas.&lt;br /&gt;Já não te julgo,&lt;br /&gt;já não te calo.&lt;br /&gt;Apenas caminho contigo,&lt;br /&gt;mão em mão, mudo,&lt;br /&gt;abrindo as portas em que queres entrar.&lt;br /&gt;Ver-te sorrir é benção&lt;br /&gt;que me ilumina em branco,&lt;br /&gt;ver-te amar &lt;br /&gt;é em ti morrer&lt;br /&gt;e eu&lt;br /&gt;deixar de ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me de um dia em que ouvi &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o sol&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e não vi luz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confundido, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;parei a olhar &lt;br /&gt;para as paredes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram altas, &lt;br /&gt;fortes, &lt;br /&gt;sólidas, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;cimentadas com a água &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;da trágica virtude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei-lhes um beijo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e choraram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não percebi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque choravam &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;tão sólidas &lt;br /&gt;paredes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;triste &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pelo seu choro,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;cada tijolo tirei e &lt;br /&gt;cada tijolo beijei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando acabei,&lt;br /&gt;os tijolos &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;haviam desaparecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morreras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adeus &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;meu tão grande amor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7160661139686212626-2606266642517431297?l=chainsapart.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://chainsapart.blogspot.com/feeds/2606266642517431297/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7160661139686212626&amp;postID=2606266642517431297' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7160661139686212626/posts/default/2606266642517431297'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7160661139686212626/posts/default/2606266642517431297'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chainsapart.blogspot.com/2008/05/o-dia-em-que-deus-morreu-nyc-2002.html' title='O DIA EM QUE DEUS MORREU (Nova Iorque, 2002)'/><author><name>Mike Chain</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08186895225677844182</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5NkqOUYuzqE/S1iVEWPGbUI/AAAAAAAAAG4/riB7_BVhDnM/S220/foto+blog.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7160661139686212626.post-5670619098829082542</id><published>2008-05-18T04:02:00.000-07:00</published><updated>2010-10-07T15:36:06.343-07:00</updated><title type='text'>"Alflores" - Nova Iorque, 2002</title><content type='html'>I.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um estranho cansaço havia-se apoderado do velho sapateiro naquela manhã de leves afazeres. Tinha finalmente acabado as botas. A D. Prazeres, secreta amante do Sr. padre Gustavinho e sua suada bicicleta nas noites de solidão, havia-lhe sugerido essa manhã seguir as passadas do Sr. Ernesto, rezam os costumes, outrora motorista do Miterrand, e abrir-se ao mercado internacional. O velho sapateiro olhava apenas as suas botas. Altas, cosidas com a perfeição de um sorriso que suspirava amar. Foi então que, por entre uma lentidão de pincéis de algodão, as botas reflectiram um luar lilás de orquídeas perdido num suor jubilado pelo querer. O velho sapateiro, com o brilho das orquídeas no seu cantar, agarrou sua fiel saca com a veemência de um olhar e a correr foi visitar a voluptuosa D. Prazeres. Depois de finalmente ser galardoado com o troféu dos gritos sublimados do pecado, beijou-a doce, e, de camisa amarela e botas debaixo do braço, partiu. Tinha decidido ir comprar flores à China.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque é que não abrem a porta?&lt;br /&gt;Triste profissao esta a de vender livros, pensou Agostinho. A timidez causava-lhe desconforto ao caminhar. Decidiu pois meter as mãos nos bolsos, segredo religioso aprendido nos momentos de mal estar causados pelo escárnio que a si dedicava quando entrava em casas em que tinha de suplicar por trocados.  &lt;br /&gt;De mãos nos bolsos, o mundo era sempre mais azul. Nada podia mudar, nada podia comprar, nada podia vender. Era apenas.&lt;br /&gt;E assim, mão no bolso, sorriso nas aves, Agostinho decidiu ir caminhar por entre as ondas que beijavam o pequeno rio de Alflores.&lt;br /&gt;Era uma daquelas tardes que a D. Aninhas descreveria como "prazenteira", com os velhos carvalhos deitados sobre a doce solidão dos campos beijados pelos suores das gentes da terra.&lt;br /&gt;Estava perdido nas árias das brisas longinquas, quando de repente uma flor caiu de um vento delicado que lhe havia soprado pela alma. Como um copo de vinho escondido de uma criança, surgiu-lhe a imagem dos bustos fortes de D. Aninhas. Há já uns dias que Agostinho notara que a imagem de D. Aninhas o perseguia como um livro de referèncias a um aluno de catequese, mas fora indubitável surpresa sentir agora o cheiro de uma cama suada com o corpo agreste desta lavradora.&lt;br /&gt;O seu passo acelerou como uma máquina de impressão a debitar panfletos de desejo, e sonhos de bicho encheram-lhe o âmago das tripas. Sentiu-se como o cavalo do Sr Ernesto a possuir a burra da D. Prazeres. Ah, inflamação animal do desejo da possessão.&lt;br /&gt;Louco, desatou a correr como uma alma perdida em lençois vermelhos de cuspo, e raivoso trincou o ânus da D. Aninhas no seu sexo.&lt;br /&gt;Ja nada havia a fazer. O bicho queria comer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram já 3 da tarde e havia ainda o pó por limpar e roupa da Sra Ermelinda por arrumar nos gavetões da sala. Este era mais um dos pequenos caprichos da Sra Ermelinda que Amélia nunca havia compreeendido. Todas as manhãs a Sra Ermelinda descia majestosa as escadas do velho palacete de Pedras Reais, apenas na sua leve camisa de noite, azul cor de céu com rendados brancos espanhóis a decorar seus seios, e sorridente passeava-se pela casa, em direcção à sala para ir buscar o vestir para o dia. Era ja um moroso ritual ao qual Amélia se havia habituado, tal como o lavar prato a prato, o descascar batata a batata, o engomar camisa por camisa. Amélia aprendera a usufruir da melancólica lentidão e moroso encanto de todos eles, assim como aprendera tambem a tirar um secreto prazer dos velhos rituais da Sra Ermelinda. Cada manhã, gostava de ver os raios do sol da clarabóia grande do salão principal a inundar os leves trajes da Sra Ermelinda e a desnudar seu corpo por entre a ilusão da reflexão das cores nos raios que cortavam as escadas. Carinhosamente ouvia a Sra Ermelinda a bramir a toda a casa se seria um dia para uma saia lilás, umas calças pretas ou o velho vestido laranja com flores azuis. Amélia sabia já que, mais uma vez, seria um dia para a saia lilás ou as calcas pretas. Estranha adoração esta que a Sra Ermelinda tinha pelo seu vestido laranja com flores azuis. Amélia não se lembra nunca de o ter visto vestido no corpo da Sra Ermelinda. Do vestido apenas sabia que havia sido comprado numa viagem que a Sra Ermelinda havia feito há muitos anos atrás a Inglaterra aquando do nascimento do menino Abel. Amélia recordava-se com clareza, pois tinha sido ela mesma que nos longos dias que demorou a viagem, tratou dos pequenos caprichos do menino Abel. Amélia perdeu-se então numa dor com sabor a leite quente que inundou seu peito, e quando estava já a sobrevoar lágrimas azuis perdidas numa montanha escondida de amêndoa, como gota que cai numa flor no inicio de uma manhã de sol, subitamente se recordou que tinha deixado a roupa interior da Sra Ermelinda a secar nas traseiras. Como se pudera ela ter esquecido? Agora, havia ainda que engomar e arrumar toda essa roupa até às 4, hora a que chegava o Sr. José Manuel Fonseca para a visitar. Presa por uma mágoa de ânsia, Amélia começou então a correr como lebre perdida num pesadelo sem portas pelo corredor que levava às traseiras do palácio. No caminho, um encontro no velho móvel onde a Sra Ermelinda guardava as suas selectas porcelanas chinesas, e, uma vez mais, um golpe na sua delicada e não amada coxa, com uma chicotada de preto com odor às cuecas sujas da Sra Ermelinda que Amélia tinha todos as manhas de recolher do chão molhado do quarto de banho, no azul de seu sonhar. Amélia abriu a porta que levava às traseiras com a força de um cavalo que brame montanhas, e em convulsão do seu espasmo animal, olhou para o céu que beijava nessa tarde Alflores. Ah, canto que lhe encheste esse sopro com odor suado à pele que lhe beijava o mar. Montanhas, sim montanhas. Brancas, sublimes, com um beijo do menino Abel nos calos de suas mãos e uma ternura leve da Sra Ermelinda em seus olhos perdidos num pano de seda vermelho. Amélia. Doce Amelia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Os sapatos custam $100", retorquiu orgulhoso o Sr José com um leve toque a saber aristocrático. "São feitos com o melhor material que pode encontrar. Pele italiana directamente importada pelo nosso fornecedor".&lt;br /&gt;"100?", saltou no ar um leve grito com som de indignação e destruição de sonhos tendo como intérprete a D. Aninhas.&lt;br /&gt;"Ora, pois....isto é...é um produto de grande qualidade". Uma ondulação de sôfrego receio, um medo latente, agarrou subitamente a voz do Sr José. O mesmo trincar de quando era ainda um petiz e a filha da Sra D. Joaquina, a menina Ermelindazinha, se deliciava 'a sua frente nos jardins de Pedras Reais com chocolates que, soavam os rumores, vinham directamente de Lisboa. Rapidamente, o mesmo calor lhe encheu o estomago, e agarrando-se 'aquela que cedo descobriu ser uma cana de pesca retorquiu: &lt;br /&gt;"Nao vai encontrar melhor em toda a Alflores, e eu diria mesmo, no pais. A Sra conhece-me D. Aninhas. Este 'e ja' um preco especial para si, pela consideracao que a si lhe tenho. Estou-lhe a vender ja a preco de fornecedor. Mal me justifica todo o trabalho de manter esta loja aberta." Atacou, assim, suave, mas rapido e imparcial, como se em ondas envolvidas numa unica e rapida onda que atinge um alvo como um dardo. Um leve enaltecer, um leve subterfugio, uma leve caricia, uma leve auto-comiseracao. Surtiu efeito. Rapidamente entreviu na D. Aninhas o habitual olhar assegurado, misturado com a confusao que normalmente seguia o seu primeiro ataque. O momento era delicado, e era agora altura de fazer o ataque final e agarrar o veado pelo pescoco.&lt;br /&gt;"Olhe D. Aninhas, por ser para si, pela admiracao e consideracao que lhe tenho, vou-lhe fazer um preco especial". Seguiu-se entao um estudado momento de silencio, com uma expressao grave de tragedia na sua face a criar o devido ambiente para o ataque final. "Olhe, seja, leve-os la por $90 e nao se fala mais nisso." E finalmente, o rematar com um ar arrependido de seriedade austera, de quem perdeu uma guerra e se auto-conforta com o sabor doce de quem olha para a frente sem ja nada para perder: "Ai Jose, Jose, por este andar pouco falta para fechar a loja".&lt;br /&gt;Estava ja a D. Aninhas prestes a deixar saltar o grito que lhe rugia dentro de possuir a beleza que queria ser, quando Agostinho entra ofegante na pequena loja do Sr. Jose.&lt;br /&gt;"D. Aninhas!", soou na loja em sobejante e possante tom Agostinho. A sua respiracao ofegante e os seus olhos esbugalhados com sabor a sangue magenta, agarraram de imprevisto D. Aninhas que se sentiu invadir por uma onda de um vermelho azul cor de ceu com odor a suor de homem. Silencio. Um silencio de horas, dias ou segundos, quem sabe, apenas feito existencia pelo intranquilo Sr Jose que continuava a magicar como empurrar estes malfadados sapatos que tinha havia ja 3 anos na loja.&lt;br /&gt;"Ola Sr Agostinho", retorquiu a D. Aninhas com a habitual franqueza lavada com forca de bracos que trabalham a terra.&lt;br /&gt;"Tenho andado 'a sua procura". Um sopro de intensa ternura apoderara-se subitamente de Agostinho. Um sopro que lhe amou as tripas que gritavam sangue. Uma brisa que envolveu o vento que lhe agarrava a boca perdida na ansia da carne. E assim, com uma estranha docura de arvore que quer envolver uma flor e de flor que quer ser envolvida por uma arvore, soprou: "Preciso de falar consigo. A sos."&lt;br /&gt;A sos. As feicoes de D. Aninhas cairam entao num lugar perdido do qual ela nunca houvera ouvido falar. Um homem que sabia ler, queria falar consigo. A sos. Nunca ninguem houvera querido falar consigo "a sos", quanto mais um homem que sabia ler. Com certeza, era uma mulher que havia ja conhecido muitos homens, nao fora ela uma "mulher da lavra, senhora da sua lida" como ela gostava de se auto-denominar. Mas "a sos". Sim, nunca ninguem lhe houvera querido tocar assim a intimidade. A sos. Um perfume perdido de quando era ainda uma fragil flor sussurrou-lhe uma ternura com odor de malmequeres, e rendida 'a fragilidade desconhecida que se apossara de seu ser, retorquiu com um toque de timidez inflamada enquanto desviou abruptamente o seu olhar para o chao: "Esta bem".&lt;br /&gt;"Esta bem", pensou Agostinho. Esta bem. As heroinas que amava nas paginas de Proust e Balzac responderiam com flores, com gritos sublimados, com paixoes que agarram montanhas. Mas este "esta bem", vinha ferido de tal autenticidade, de tal verdade, de tal sentimento, que agarrou a leve alma de Agostinho como a mais bela sinfonia de Brahms num entardecer sonhado de Viena. E assim, olhou com um olhar rasgado o Sr Jose, um olhar de macho para macho segurando seu trofeu em bracos, enquanto D. Aninhas, perdida nos ventos azuis claros que lhe gritavam ser, olhava com olhar de infinita dependencia o seu lindo macho. Como animal que vira a sua presa fugir em frente a seus olhos, o Sr Jose tristemente se dirigiu por entre lamurios sussurrados para o seu balcao, e Agostinho, feliz vencedor, agarrou D. Aninhas pela mao e foi, seguro como uma rocha que segura com bracos musculados e peito cheio a agua turbulenta de seu sentir, para la'. Para la'. Para onde sopram os ventos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;V.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"O sol esta' tao quente esta tarde", suspirou  o Sr Jose em tom arrastado por entre uma lentidao amolecida pelo calor e pela usual sonolencia que o atacava apos as quentes refeicoes que sua estimada mulher, a D.Marquinhas da Fonte, cuidadosamente lhe preparava todos os dias 'as 12.30, hora religiosa do seu "abastecer". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VI.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era ja fim de tarde, e o sol preparava-se para se deitar sobre as calcadas gastas de Alflores, calmamente esvaindo-se de encontro 'a solidao nocturna que benzia o sentir das gentes de puro sentir da pequena terra. Maria havia decidido essa tarde caminhar-se por entre os ventos que sopravam leves sobre o rio que beijava a velha aldeia. Um passeio por entre as flores e os perfumes das aves que suspiravam ternuras em oracoes de azul a caules de trigo. Maria caminhava leve, docemente beijando cada folha, exalando sinfonias de ternura aos ventos rendidos que de harpa em mao lhe suspiravam sentir. Sinfonias cantavam dos ceus em busca do perfume de seus cabelos e ervas brancas em vitrais azuis envolviam sua pele num lencol de infinita brandura. Uma pura inocencia de beleza cor de ceu, com uma crianca que bailava nua por entre o mar rendido de seu sentir. O ceu estava pintado a pastel com cores de violetas e laranjas de doce sabor a beijar seu corpo. Maria caminhava absorta por entre os poemas que dos ceus os ventos apaixonados lhe declamavam, protegendo sua branda delicadeza com sopros de beijos de serenidade.  Um leve cansaco sussurrou-lhe entao desejos de uma cama de erva macia com perfumes de lavanda e mel. Maria agarrou com leveza de brisas seu desejo e com infinita delicadeza deitou seu corpo sobre um tapete de mar que a esperava perto do rio. "As aguas do rio hoje estao tao serenas", sorriu Maria para o rio. Este, como se houvera sentido que uma folha perdida nos ventos o beijasse, espairou-se por entre ondas escorridas de veludo que com a sublimacao de um deus morreu e cantou por entre beijos uma aria. Ah, que doce melancolia se apoderava de Maria perdida nos ventos de seu amar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VII.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Quao estranhas sao as paisagens vistas de um comboio", pensava Abel perdido na velocidade da sincronizacao de seu olhar nas arvores que se estendiam pelas longas planicies Alentejanas que conduziam 'a velha aldeia de Alflores. Havia ja' 15 anos que Abel havia partido para Inglaterra em busca dos sonhos de seus pais e de seu amar. Das recordacoes ficara apenas um cheiro, um tenue odor a amendoa que ora o beijara ora o chicotara ao longo dos anos de seu arrastado exilio. Lembrava-se com clareza do ultimo dia anterior 'a sua partida, com os olhos da sua querida Amelia a suspirarem uma ternura canina de infinita proteccao e da boca de sua mae e maos de seu pai a sorrirem um sol que o havia perseguido todos os restantes anos na busca da perfeicao. Como lhe parecia agora breve o tempo. O outrora moroso passado cristalizara-se num so' vento que por vezes lhe ousava adivinhar o futuro, e o presente, esse, houvera-se esquecido que havia algo para lembrar. Abel tornara-se um homem letrado nas artes das leis, e por acidente que um dia o beijou de imprevisto, um jovem discipulo na dificil arte das gentes. Um homem sereno, com uma solidao escondida na arte de seu amar que so' 'as estrelas da noite ousava sussurrar. Fora longa a travessia do jovem Abel. Caminhadas de pesar por entre paredes de tragica virtude que lhe prometiam amar. Levantara muros, empurrara montanhas, perdera-se em lagos que segredavam amar. Tudo parecia agora tao longe, perdido no tempo como uma flor num vagao de luz. As arvores essas, estavam mais belas do que algum dia as imaginara por entre essas noites solitarias nos planaltos de seu sentir passadas a construir livros em castelos de areia. &lt;br /&gt;"Deseja cafe senhor?", ouviu-se entao como um jogo de xadrez a ressoar no ar. Abel sentiu as palavras perdidas no vento e por momentos ficou num confuso silencio a tentar associar os sons que voavam no ar 'as estruturas de seu sentir. Ainda indeciso, como que se a levantar um braco ou dobrar um dedo, balbuciou incerto "...sim.....por favor...". Cafe? Porque nao? "Sao $2 por favor". $2? Soou em geito de alarme uma voz de inquisicao no seu involuntario pensar. Abel, nao lhe fez caso e deixou-a a flutuar para futura meditacao. No entretanto, tratou de resolver o interessante contrato no qual havia entrado. "Ora, aqui tem. Muito obrigado". "Obrigado a si". Encantador. Desde a chegada a Lisboa algumas horas atras onde apanhara o velho comboio em direccao a casa, que Abel estava encantado com a nostalgia e o calor azul em sopros brancos que sentia suspirar no seu saudoso povo. Estava absolutamente encantado com as flexoes verbais que lhe soavam de tal pureza e beleza de diccao e com os velhos costumes que lhe traziam o toque familiar do ser por entre caras com sorrisos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7160661139686212626-5670619098829082542?l=chainsapart.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://chainsapart.blogspot.com/feeds/5670619098829082542/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7160661139686212626&amp;postID=5670619098829082542' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7160661139686212626/posts/default/5670619098829082542'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7160661139686212626/posts/default/5670619098829082542'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://chainsapart.blogspot.com/2008/05/blue-and-orange-nyc-2002.html' title='&quot;Alflores&quot; - Nova Iorque, 2002'/><author><name>Mike Chain</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08186895225677844182</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://2.bp.blogspot.com/_5NkqOUYuzqE/S1iVEWPGbUI/AAAAAAAAAG4/riB7_BVhDnM/S220/foto+blog.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
